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Professora de espanhol em uma escola na periferia da cidade de Samambaia, nos arredores de Brasília, Jéssica Mary do Rosário, 36, não sabia o que esperar quando foi designada para dar aula da disciplina Projeto de Vida para o primeiro ano do ensino médio, no começo de 2025.
Depois de um curso de formação e de quase um ano lidando com o tema, ela se deu conta de que o conteúdo que trabalha em sala de aula é tão relevante para os estudantes quanto português, matemática e outras disciplinas da Formação Geral Básica.
“Fui entendendo a importância de eles terem um espaço para refletir sobre a própria identidade, sobre autoconhecimento e sobre planos de vida. Porque muitas vezes eles se engajam nos conteúdos, mas quando terminam o ensino médio não conhecem os próprios talentos, não sabem qual profissão seguir ou que tipo de pessoa querem ser”, afirma.
Uma das dez competências gerais da educação básica listadas na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), o Projeto de Vida se propõe a ajudar os estudantes a refletirem sobre seus valores, interesses e objetivos, planejando caminhos pessoais e profissionais. Apesar de nem sempre ser uma disciplina separada, essa abordagem vem se tornando mais comum, especialmente após o Novo Ensino Médio.
Com seus alunos, Jéssica aplicou atividades como um mapeamento de talentos e um teste de inteligências múltiplas, que identifica habilidades para além da acadêmica —musical, corporal e interpessoal, por exemplo. “Foi uma aula de descobertas. Muitos dizem que não sabem fazer nada, mas o colega chega e fala: ‘Mas você é bom em desenho’. Gosto de trabalhar os dons e as habilidades que muitas vezes nem eles sabem que têm”, diz.
A “dinâmica do elogio” também fez sucesso. Nela, todos escrevem elogios uns para os outros sem se identificar, e no final cada estudante lê o que os colegas escreveram sobre seus pontos positivos.
“Muitos alunos têm baixa autoestima, vêm de famílias desestruturadas e enfrentam fome, problemas com drogas ou bebidas, evasão”, conta Jéssica. “Tentamos trabalhar com eles uma perspectiva de futuro, de esperança, mostrar que eles podem chegar mais longe. Esse é o grande desafio do professor de escola pública.”
Para engajar os alunos, ela trabalha com recursos como memes —tema de seu mestrado— e um aplicativo de aprendizado baseado em jogos. Os estudantes têm um “diário de bordo” para anotar reflexões sobre as aulas e, no fim de cada bimestre, fazem uma autoavaliação sobre o que aprenderam —que se soma a outras formas de medir o desempenho, como trabalhos em grupo.
A disciplina ajuda a abordar assuntos delicados e frequentes na rotina dos estudantes, como o tabagismo, especialmente o “vape”. Além de um quiz digital com mitos e verdades, os alunos da escola elaboraram folhetos educativos. “Muitos abriram os olhos, disseram que não conheciam tantos malefícios. Um estudante me disse que decidiu parar de fumar. Isso para mim já é um resultado e tanto”, diz a professora.
Para Jéssica, alguns estudantes têm dificuldade de falar de si mesmos ou de perceber a utilidade do Projeto de Vida em sua trajetória escolar. “É um desafio buscar esse estudante, mostrar a importância desse momento de reflexão sobre as decisões que ele vai tomar daqui para a frente. Com o tempo, eles começam a se abrir, mesmo que por escrito. São muitas histórias difíceis, mas a gente vê luz no fim do túnel.”
Muito além da orientação profissional
A principal referência mundial em projeto de vida na juventude é o psicólogo americano William Damon, diretor do Stanford Center on Adolescence. Após identificar a falta de sentido e de perspectiva entre adolescentes, ele passou a pesquisar como os adultos e a escola poderiam atuar como facilitadores desse processo.
A psicóloga Valéria Arantes, professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), estudou com Damon na Califórnia e, ao voltar, fez pesquisas sobre o perfil da juventude brasileira. Descobriu que 60% deles tinham projetos de vida frágeis —não conseguiam definir como se imaginavam no futuro nem qual profissão teriam, por exemplo— ou idealizados —vislumbrando um futuro perfeito, sem obstáculos.
Por outro lado, um estudo conduzido por uma orientanda de Arantes mostrou que jovens que tiveram formação em Projeto de Vida construíram projetos de vida mais complexos e com mais compromisso social do que os de um grupo controle. “A diferença nos valores e nas narrativas dos jovens que passaram pela intervenção foi gritante”, diz a professora.
Para Arantes, o que se ensina em Projeto de Vida não deve ser visto como complementar aos conteúdos tradicionais. Pelo contrário: dialoga com a essência da educação. “Não é possível que uma criança ou um jovem vá para a escola para aprender a resolver uma equação de segundo grau. Para mim, eles estão na escola para aprender a resolver os problemas da vida. A matemática, a leitura e outros conteúdos tradicionais são instrumentos importantes, mas devem ser os meios para se atingir esse fim.”
Ela vê a disciplina como uma ferramenta para lidar com a crise de saúde mental nas escolas e universidades, “desde que implementado por professores preparados, em um espaço de acolhimento e confiança”.
A capacitação docente, porém, é um gargalo: “As políticas públicas trazem a obrigatoriedade, mas não constroem medidas para formar os professores”, diz.
Como não há formação universitária específica, os professores designados para lecionar esse componente curricular vêm de outras áreas. “Muitos começam a dar aula sem preparo, na cara e na coragem. E isso é ruim para o estudante e para o profissional”, diz Paulo Emílio Andrade, presidente do Instituto Iungo, que oferece capacitação gratuita em PV.
Ele faz uma ressalva: “Professor não é psicólogo e projeto de vida não é um espaço terapêutico. Não é um espaço para o professor dizer o que o aluno tem que fazer, mas de ele construir caminhos a partir da própria reflexão e da interação com os colegas.”
Um erro comum é restringir as aulas de Projeto de Vida à orientação profissional, sendo que esta é apenas uma das três dimensões da área —que inclui também a dimensão pessoal (focada no autoconhecimento) e a social (na relação com o outro).
Apesar dos desafios, Andrade acredita que a experiência de dar aula de PV pode ser muito rica para o professor. “Ele começa a conhecer o nome de cada aluno, a história dele, um pouco sobre a família dele. É uma oportunidade de ele se ver em outro lugar: o de um educador que está pensando na vida do estudante, para além dos conteúdos que ensina.”
Quem ensina o Brasil: Jéssica Mary Costa do Rosário, 36
- Professora há: 4 anos
- Para quantos alunos dá aula: 493
- Formação: Letras português, espanhol e inglês, com mestrado em linguística aplicada
- Disciplinas: espanhol e Projeto de Vida
79%
dos estudantes do ensino médio no Brasil concordam que já tiveram um professor que os ajuda a construir seus sonhos, mostra pesquisa Datafolha feita com mais de 7.700 jovens
Este texto faz parte da série Quem Ensina o Brasil, uma parceria da Folha com a organização Todos pela Educação.
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Fonte: Folha
