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Premiado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o projeto do Piauí que torna obrigatório o ensino de IA (inteligência artificial) para turmas do 9º ano e do ensino médio ainda enfrenta limitações no acesso à informática.
Iniciado em 2024, o programa, pioneiro no país, está presente em 517 das 640 escolas do estado, alcançando mais de 120 mil estudantes, segundo o governo piauiense.
No ano de implementação, 51,2% do total das escolas estaduais declaravam-se sem internet para uso dos alunos e um terço dizia não oferecer conexão para fins pedagógicos, segundo o Censo Escolar de 2024, levantamento mais recente do Inep.
A deficiência também aparecia na infraestrutura física: 51,2% das instituições de ensino não tinham laboratórios de informática, espaços centrais para a alfabetização digital.
A Secretaria de Educação do Piauí afirma que, desde então, tem ampliado o acesso à tecnologia e que a disciplina de inteligência artificial foi incorporada ao currículo com estratégias que não dependem exclusivamente de laboratórios ou conexão contínua, incluindo atividades offline e experiências práticas que “desenvolvem conceitos centrais de IA, lógica e ética”.
Segundo o órgão, 93% das escolas de tempo integral contam, atualmente, com laboratórios equipados e em pleno funcionamento, dentro de um programa de modernização dos espaços. A Seduc também destaca que lidera em conectividade entre os estados brasileiros, com 92% das unidades atendendo aos critérios mínimos de velocidade e cobertura de wi-fi do Inec (Indicador Escolas Conectadas), do MEC (Ministério da Educação).
Mas, diferentemente do Censo, o Inec não diferencia a disponibilidade de uso da conexão, como acesso liberado para alunos, uso pedagógico ou administrativo, o que pode ajudar a explicar o descompasso entre os indicadores e o uso cotidiano descrito por professores.
Rafael Ribeiro, professor de IA do Ceti Zacarias de Góis, o Liceu Piauiense, em Teresina, relata enfrentar problemas na conexão de internet da escola. Ele é licenciado em matemática e assumiu a disciplina após uma capacitação em 2024, como alternativa diante da falta de vagas na própria área de formação.
Ribeiro conta que as diretrizes do programa priorizam atividades offline, com foco em conceitos como automação de tarefas e uso de dados. Entretanto, avalia que computadores e internet podem ser necessários em conteúdos como aprendizado de máquina, especialmente para testes, simulações e coleta de dados, além de análise de filmes e séries sobre o tema.
De acordo com o professor, muitas vezes não há horários disponíveis nos laboratórios de informática, disputados por cerca de 20 turmas.
Para essas tarefas, o docente recorre aos computadores ou aos smartphones dos alunos, mantidos na coordenação e liberados apenas para atividades escolares desde a proibição do uso dos aparelhos nas escolas. Nessas ocasiões, a conexão de wi-fi costuma falhar, afirma ele.
Durante a apuração desta reportagem, a unidade aparecia no nível 2, em uma escala de 0 a 5, do Inec. O índice (que é dinâmico e pode variar conforme as informações recebidas pelo Ministério) aponta que a escola tem wi-fi, mas com velocidade inadequada para o seu porte —menos de 1 Mbps por aluno no turno com mais matrículas.
No município de Teresina, das 145 escolas, 59 tinham nível 5, com velocidade adequada e wi-fi cobrindo a unidade; 80 apareciam no nível 4, com velocidade adequada, mas wi-fi insuficiente. Outras cinco instituições de ensino estavam no mesmo patamar do Liceu.
Fora da região da capital, onde estudam sete em cada dez alunos da rede estadual, 52,1% dos estudantes estavam matriculados em escolas sem laboratório de informática, contra 34,3% na microrregião de Teresina, segundo o Censo.
No acesso à internet para aprendizagem, 23,4% não tinham conexão em Teresina, contra 30,3% no interior. De acordo com o Inec, 46,9% dos alunos do interior estão em escolas nível 5, ante 48,9% na capital.
Integrante de um grupo com docentes da disciplina de inteligência artificial em todo o estado, Ribeiro afirma que os relatos de infraestrutura precária são frequentes. Segundo a Seduc, o governo acompanha continuamente a qualidade do serviço prestado às escolas, acionando o provedor sempre que a velocidade fica abaixo do contratado.
Rogério de Almeida, doutor em educação pela USP (Universidade de São Paulo), considera que, mesmo com as dificuldades no acesso à internet, a política do Piauí é positiva e importante para reduzir o abismo entre escolas públicas e particulares, que tendem a assimilar essas ferramentas rapidamente.
Para Almeida, o currículo adotado pelo estado prevê o ensino crítico sobre a tecnologia e, por isso, problemas de infraestrutura não justificam a inexistência da matéria. Na sua avaliação, a própria necessidade de utilizar a tecnologia pode resultar em mais investimentos em conectividade.
E resultou: as 14 escolas que se declaravam sem conexão com a internet no Censo Escolar já tinham sinal em 2025 —apenas cinco delas constam como “wi-fi insuficiente” nos dados do governo.
Esta reportagem é resultado do laboratório de jornalismo de dados de educação e cultura, promovido pela Folha e pela Fundação Itaú em outubro de 2025.
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Fonte: Folha
