Haidt: Lei de celular nas escolas do Brasil é das melhores – 13/05/2025 – Educação

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“Bom dia!” —e não “good morning”—, diz o americano Jonathan Haidt, autor do best-seller “A Geração Ansiosa”, que se tornou uma celebridade internacional no debate sobre os danos dos celulares e das redes sociais a crianças e jovens.

Simpático, o psicólogo entra na videoconferência para esta entrevista à Folha mostrando que o “bom dia” não é uma performance à astros da música, que ensaiam algumas palavras para saudar o público de cada país. “Eu falo um pouco de português, mas melhor fazê-la em inglês”, diz ele, sobre a entrevista.

Haidt, em breve, poderá praticar mais a língua portuguesa, em uma visita que fará ao Brasil. No dia 19, ele será o convidado da abertura da temporada 2025 do Fronteiras do Pensamento, projeto cultural, com parceria da Folha, que promove conferências com pensadores contemporâneos. Sua apresentação, com ingressos esgotados, será no auditório Ruy Barbosa, da Universidade Mackenzie, em São Paulo.

No Brasil, “A Geração Ansiosa” (Companhia das Letras) já vendeu, em menos de nove meses, 80 mil exemplares, enormidade para um mercado em que a tiragem média gira em torno de 3.000. Nos EUA, já foram mais de 1,2 milhão de cópias —desde que foi lançado, há 55 semanas, está na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Há contratos assinados com 50 países, com cerca de meio milhão de exemplares vendidos pelo mundo.

À Folha Haidt lembra com carinho como aprendeu português. Ele, que já falava espanhol, passou seis semanas no Brasil em 1989 para parcerias com pesquisadores das universidades federais de Pernambuco e do Rio Grande do Sul —para esta última, retornaria em 1995 para mais duas semanas de pesquisas.

Nesta entrevista, entre outros temas, fala do banimento dos celulares nas escolas e dos próximos passos para proteger crianças e adolescentes dos danos da hiperconectividade.

O seu livro é considerado fundamental no Brasil para o debate que levou à proibição dos celulares nas escolas. Como avalia esse sucesso e a escalada internacional de banimento dos smartphones no ambiente escolar?

Quando escrevia o livro, sabia que seria popular porque nós, pais do mundo inteiro, estamos lutando com o tempo de tela dos filhos, vendo as dificuldades que isso está causando nas nossas famílias. O que não esperava era que se tornasse um best-seller instantâneo na maioria dos países em que foi publicado.

A questão das escolas sem celular tem sido, de longe, a mudança mais rápida [dentre aquelas que ele propõe no livro para proteger a infância e a adolescência, como a do uso dos smartphones só depois dos 14, e das redes sociais após 16].

Os professores e os diretores odeiam os celulares. A situação é dramática nas escolas, problemas de distração, de indisciplina, brigas causadas por redes sociais. Mas muitas escolas não proibiam o celular por medo de pais que diziam: “Tenho o direito de ligar para o meu filho quando quiser. E se ele precisar de mim?”

Acho que meu livro deu confiança às escolas de que precisavam fazer isso. E confiança para esses pais, que agora dizem: “Por favor, façam isso pelo meu filho. Quero que ele aprenda a não ficar o dia todo no TikTok.”

As escolas livres de celular se espalharam rapidamente. Nos EUA, entre oito e nove estados já aprovaram leis nesse sentido, e todos os outros têm projetos de lei sobre o tema. A lei do Brasil é uma das melhores, o dia inteiro sem dispositivos eletrônicos com internet nas escolas.

Alguns países proíbem somente nas aulas. E isso não é muito bom, porque todos estão no celular nos intervalos, não conversam, e muitos ainda continuam usando nas aulas, escondendo o aparelho.

A lei brasileira acabou permitindo que os aparelhos possam ser guardados nas mochilas, a partir de uma demanda de deputados da direita que argumentam que o celular é uma arma para os alunos se defenderem do risco de violência e da doutrinação política de professores.

O armazenamento na mochila não é tão eficaz. Muitos alunos são viciados, e é como se, em uma clínica para dependentes de heroína, você dissesse aos pacientes que podem guardar a droga na mochila. Muitos vão acabar indo ao banheiro para usar.

É muito melhor usar aquelas pochetes individuais que trancam os aparelhos [com travas magnéticas, abertas por um dispositivo na saída da escola] ou a solução mais simples de todas: os alunos entregam o celular para o professor ou algum funcionário, os aparelhos são guardados em uma caixa e devolvidos na saída.

Sobre o argumento da doutrinação, entendo que algumas pessoas possam desconfiar disso e que tenham impulso de querer filmar os professores e postar nas redes. Mas há outras maneiras de lidar com isso. Os alunos podem anotar o que foi dito pelos professores e relatar depois. Não é preciso expô-los na internet.

Ao fazer isso, criamos um clima terrível de medo, incompatível com a educação. Foi o que ocorreu com as universidades nos EUA, nas quais também houve alunos de esquerda que filmavam professores e os expunham. Quando as pessoas acham que podem ser filmadas, se autocensuram.

Estudantes de famílias conservadoras ou progressistas estarão mais bem servidos em uma escola onde as pessoas conversem entre si e não fiquem se filmando mutuamente.

Com a consolidação do banimento dos celulares nas escolas, qual deve ser o próximo passo? Rever mais amplamente o uso da tecnologia na educação?

Sim, esse é o próximo passo. Escolas que retiram os celulares têm ótimos resultados. Os alunos se divertem mais, riem mais, brincam mais. Mas, quando estão em suas carteiras, continuam assistindo ao YouTube [nos computadores].

Nos EUA, nos anos 1990, achávamos que havia um problema de equidade. Pensávamos: “Os alunos ricos têm computadores, os pobres, não”. Era importante colocar um computador na mesa de cada criança.

Com o Chromebook, mais barato, em 2014 ou 2015, a maioria das crianças tinha um computador ou tablet à disposição. E foi exatamente nesse momento que as notas começaram a cair. E principalmente as dos mais pobres e com pior desempenho. Achávamos que estávamos ajudando crianças sem acesso a computadores. Em vez disso, colocamos máquinas de distração na frente delas.

Sobre a tecnologia educacional, há pouquíssimas pesquisas que comprovem sua eficácia. E algumas foram feitas pelas próprias empresas que as vendem. A Unesco [braço da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura] publicou dois relatórios dizendo que a tecnologia educacional está prejudicando a educação.

A Suécia, um país progressista e avançado, foi um dos primeiros a digitalizar tudo nas escolas. Os alunos aprenderam menos. No ano passado, a ministra da Educação disse: “Foi um erro. Vamos voltar ao papel e lápis.”

Pode haver um computador na sala, um laboratório de informática, tudo bem. Mas não devemos ter tecnologia nas carteiras. E isso vale até o fim do ensino médio.

No Brasil, vimos uma rara união entre direita e esquerda para aprovar a lei de proibição dos celulares nas escolas. Isso pode também acontecer no debate sobre a regulação das redes sociais, nos aspectos da proteção à infância?

Essa união para o banimento dos celulares é muito empolgante. Nos EUA, como você sabe, não conseguimos concordar em nada, e estamos no processo de nos destruirmos mutuamente. Exceto nessa questão, porque republicanos e democratas têm filhos. Todos enfrentam essa luta em suas casas, todos se preocupam com saúde mental.

Então, essa tem sido uma questão maravilhosamente bipartidária. E isso também é verdade na Austrália e no Reino Unido, por exemplo. Estou otimista de que, mesmo que esse problema seja enorme, podemos realmente resolvê-lo com pouco dinheiro e pouco desacordo político.

Existem vários tipos de regulação que podem ser aprovados. O que sempre será politicamente controverso é a moderação de conteúdo. Cada lado acha que o outro lado tem ideias perigosas e falsas.

Mas não estou trabalhando com nada disso. Estou focado em aumentar a idade mínima para o uso das redes sociais. Atualmente, não há limite [apesar de ser, oficialmente, 13 anos]. Se você for velho o suficiente para mentir, pode ir a qualquer lugar na internet. Devemos aumentar para 16 anos, com verificação da idade. E não há, de fato, uma divisão entre esquerda e direita quanto a isso.

No Brasil, tivemos recentemente o caso de uma menina de 8 anos que morreu após participar de um desafio de rede social para inalar desodorante. O sr. acha que a comoção pública causada por um caso assim pode impulsionar a regulação das big techs? Ou a indignação se dissipa rapidamente?

Meu Deus, uma menina de 8 anos…

Em democracias, o que o público quer muitas vezes tem pouco impacto no que os legisladores fazem, até que a indignação pública é tão forte que mudanças rápidas ocorrem.

Houve uma coincidência feliz nesse sentido. O meu livro foi lançado em março de 2024 e, desde então, está sendo muito lido, e as pessoas se familiarizaram com as pesquisas sobre perigos e danos. E, neste ano, foi lançada a série “Adolescência”, da Netflix, que teve um efeito profundo e está impulsionando ações.

Talvez essa menina no Brasil possa ter esse efeito. O que enfrentamos é uma catástrofe, que venho tentando expor com dados. Quando a catástrofe é ilustrada com mortes de crianças, a repulsa pública é tão grande que, muitas vezes, as democracias acabam agindo.


RAIO-X | JONATHAN HAIDT, 61

Natural de Nova York, graduou-se em filosofia pela Universidade Yale e fez mestrado em psicologia na Universidade da Pensilvânia, com pesquisa sobre a moral em diferentes culturas. Especializou-se em psicologia cultural na Universidade de Chicago. Iniciou a carreira como professor em 1995, na Universidade da Virgínia. Desde 2011, leciona Liderança Ética na Universidade de Nova York. É autor de obras como “A Hipótese da Felicidade” e “A Mente Moralista”, traduzidas para múltiplos idiomas. Em 2024, publicou o best-seller “A Geração Ansiosa”, sobre os danos da hiperconectividade a crianças e jovens.

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Fonte: Folha

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