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Sabe a famosa Lei de Murphy, “qualquer coisa que pode dar errado, dá errado”? Ela foi popularizada pelo livro “Lei de Murphy – e Outros Motivos Por Que Tudo dá Errado”, publicado em 1977 pelo escritor Arthur Bloch, que a atribuiu ao engenheiro aeroespacial Edward Murphy. Bloch também propôs várias consequências e variações, tais como “no engarrafamento a outra pista sempre anda mais rápido”.
Confesso que nunca fui muito fã. Pra começar, porque essa “lei” é obviamente falsa. Já pensou em tudo que pode dar errado numa viagem aérea? E, no entanto, elas são rotineiramente bem-sucedidas. Também, venho notando que no trânsito denso do Rio de Janeiro é comum que a minha pista seja a mais rápida. E mesmo quando isso não acontece a lei continua sendo falsa, para os motoristas na outra pista…
Murphy também não era fã, aliás: sempre se incomodou por ter seu nome associado a uma afirmação que não era sua. O que ele realmente disse, por volta de 1949, foi que “se a coisa tem como dar errado, esse cara vai conseguir errar”, referindo-se a um de seus assistentes. Isso é mais razoável e consistente com a minha própria experiência.
No segundo volume de seu livro, publicado três anos depois, Bloch incluiu uma regra relacionada, que chamou Navalha de Hanlon —em filosofia, “navalha” é uma ferramenta mental que elimina explicações inadequadas, simplificando a busca pela verdade— e com a qual eu me identifico: “não atribua à má-fé aquilo que pode ser explicado como estupidez”. O autor seria um tal de Robert J. Hanlon, da Pensilvânia, mas não consegui descobrir nada sobre ele.
Em todo caso, a ideia é muito anterior. Em “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, publicado em 1774, o poeta alemão Goethe já escreveu que “mal-entendidos e negligência causam mais danos no mundo do que má-fé ou maldade”. Na mesma linha, um personagem da novela de ficção científica “Lógica do Império”, publicada por Robert Heinlein em 1941, reclama: “você atribui à vilania condições que resultam, simplesmente, da estupidez”. Heinlein reforçou a ideia no conto “Tempo Suficiente para Amar”, de 1973: “nunca subestime o poder da estupidez humana”.
O tema ganhou até uma espécie de estudo filosófico: o delicioso livrinho satírico “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana”, publicado em 1976 pelo historiador e economista italiano Carlo Cipolla. O autor argumenta que o bandido, que causa prejuízo aos demais para seu próprio benefício, é menos nocivo para a sociedade como um todo do que o estúpido, que prejudica os outros sem colher nenhuma vantagem para si próprio.
Nossos ancestrais evoluíram em ambientes perigosos, onde presumir que o outro estava tentando nos prejudicar era uma boa estratégia de sobrevivência. No mundo atual, a cooperação, quando viável, é uma via muito mais efetiva para o sucesso. A Navalha de Hanlon convida a substituir nosso impulso evolucionário pela explicação mais provável, tornando possível avaliar as ações de outras pessoas de forma mais racional.
Nesse sentido, ela também deriva da Navalha de Occam, atribuída ao filósofo e teólogo inglês do século 14 Guilherme de Occam: “entre as várias explicações possíveis para um fenômeno, a mais simples costuma ser a melhor”. Esta última merece uma coluna só pra ela. Quem sabe um destes dias.
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Fonte: Folha
