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Dedicada a conhecer a Amazônia e integrar os saberes de povos tradicionais à ciência, a Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) avançou de forma significativa nos rankings de 2 dos 5 indicadores do RUF (Ranking Universitário Folha).
Subiu 35 posições em internacionalização, do 82º lugar em 2024 ao 47º em 2025, e 29 em inovação, do 94º ao 65º.
A subida, além de refletir a troca da plataforma Web of Science pela base de dados Scopus, da Elsevier, pode ser resultado também do investimento da instituição em iniciativas nessas frentes.
A pró-reitora de pesquisa, pós-graduação e inovação tecnológica, Kelly Castro, aponta o PEEx (Programa Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão) como um dos principais exemplos.
O programa oferece bolsas aos participantes e os organiza em cadeia —professores orientam alunos da pós-graduação, que guiam graduandos, que acompanham estudantes do ensino médio— para contribuir com soluções para questões locais.
No projeto Cuidadores do Ar, por exemplo, o monitoramento com sensores de baixo custo ajuda fornecendo boletins às prefeituras e informando a população sobre cuidados com a saúde quando secas e fumaça de queimadas atingem a região.
“O PEEx nos permite integrar ensino, pesquisa e extensão, articular a pesquisa da pós com a graduação e aproximar a universidade da sociedade e da educação básica, porque não existe divulgação melhor do que ter um aluno bolsista da escola atuando aqui”, diz a reitora Aldenize Ruela Xavier.
O contexto geográfico e social da Ufopa faz das pesquisas sobre amazônia e povos tradicionais parte de sua identidade.
Buscar respostas para problemas regionais é visto, diz Kelly Castro, como responsabilidade de uma instituição localizada no coração da floresta, com sede em Santarém e campi em outros sete municípios do oeste paraense (Alenquer, Itaituba, Juruti, Monte Alegre, Óbidos, Oriximiná e Rurópolis).
“É natural que nossas pesquisas tenham foco em Amazônia, biodiversidade, sociobioeconomia e saberes tradicionais, porque muitos dos nossos alunos indígenas, quilombolas e ribeirinhos trazem problemas de vivência em suas comunidades e querem pesquisar em cima disso para inovar e até exaltar saberes populares, conectando-os com a ciência e para validá-los”, afirma a pró-reitora.
Segundo o Censo Demográfico do IBGE, 32,1% da população quilombola (426,4 mil de um total de 1,3 milhão) viviam na Amazônia Legal em 2022. O Pará, onde estão 135 mil pessoas do grupo, é o estado com maior presença quilombola na região e o quarto no Brasil, atrás apenas de Bahia, Maranhão e Minas Gerais.
A arqueóloga quilombola Elaine Pinto, 29, dedica sua pesquisa no mestrado em antropologia e arqueologia da Ufopa ao estudo dos quilombos pela perspectiva das populações que os habitam para dar visibilidade às regiões e atender às demandas locais.
Sob o conceito de arqueologia afrorreferenciada, a maioria das análises parte da escuta de histórias das pessoas mais velhas e da observação de elementos da paisagem.
“As árvores são marcadores cronológicos significativos para os territórios quilombolas. Quando conversamos com os mais antigos, eles falam que uma mangueira é da época da avó ou da bisavó deles, por exemplo, então já conseguimos ver ocupações de mais de 200 anos de acordo com a cronologia das árvores”, diz Elaine.
“Muitas vezes não há uma casa no local, mas podemos encontrar plantas de poder [usadas em cerimônias sagradas] no que poderia ser um quintal”, completa a arqueóloga.
Hoje, seis territórios quilombolas de Santarém —Murumurutuba, Murumuru, Tiningu, Bom Jardim, João Pereira e Saracura— fazem parte da pesquisa de Elaine, também responsável por coordenar com a irmã, Rafaela, também arqueóloga e mestranda, uma iniciativa cultural de fortalecimento da identidade quilombola.
Além do mestrado, a atuação de Elaine se dá também em projetos como o “Memórias de vidas que brotam da terra: permanências e resistências nos quilombos do Paranã do Maicá sob o olhar da arqueologia e da história”, por meio do qual um grupo coordenado pela professora Anne Rapp Py-Daniel encontrou e registrou dois sítios arqueológicos de Santarém no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Nacional).
Resultados como esse, diz Elaine, são fundamentais para reforçar a importância de proteger os quilombos de intervenções que podem ameaçar o modo de vida das comunidades, como a construção de portos para transportar grãos pelo Lago do Maicá, utilizado para pesca e transporte em todos os quilombos da cidade.
“Uso a arqueologia como ferramenta política para ajudar meu território. Por muito tempo, nossos quilombos receberam pessoas de fora que só pegavam dados e desapareciam. Queremos que falem dos nossos quilombos, mas isso tem que acontecer com respeito, porque as pessoas querem retorno. Hoje, somos protagonistas e podemos contar nossas histórias a partir das nossas reflexões e vivências.”
Kelly Castro, pró-reitora de pesquisa, afirma que outra preocupação da Ufopa é, além de transformar o conhecimento da Amazônia e dos povos tradicionais em ciência, garantir que essas pesquisas extrapolem os âmbitos regional e nacional.
Para isso, o PEEx conta com uma versão internacional em que R$ 360 mil foram investidos em missões de intercâmbio de alunos e professores em universidades estrangeiras. Um dos grupos contemplados esteve em Angola, na Universidade Rainha Njinga Mbande (em Luanda) e na Universidade José Eduardo dos Santos (em Huambo), enquanto outro fez intercâmbio na Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso, no Chile.
A universidade também destinou R$ 200 mil do orçamento de 2025 ao edital Papciq (Programa de Apoio à Produção Científica Qualificada), que financia a tradução e a publicação de artigos em revistas científicas conceituadas, indexadas e internacionalizadas —desde 2023, uma das exigências para aprovação é que os trabalhos submetidos tenham alunos como autores.
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Fonte: Folha
