Redação Enem: Inep liga notas baixas a repertório de bolso – 21/01/2026 – Educação

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O Inep, órgão responsável pelo Enem, afirma que não houve mudança nos critérios de correção da redação do Enem em 2025 e diz que uma das principais hipóteses para explicar a percepção de notas mais baixas neste ano é o uso crescente de modelos prontos e de “repertórios de bolso” na preparação dos candidatos.

A repercussão começou após a divulgação dos resultados do exame, na sexta-feira (16), quando estudantes passaram a relatar nas redes sociais uma queda nas notas da redação, especialmente na comparação com simulados e edições anteriores. O instituto foi procurado pela reportagem depois que cursinhos e docentes relataram essa percepção.

À Folha o presidente do Inep, Manoel Palacios, afirmou que a matriz de correção da redação foi mantida, assim como a equipe de corretores, os procedimentos de capacitação e a banca responsável pela avaliação. Segundo ele, até o momento o órgão não dispõe de dados consolidados que confirmem uma redução da nota média. “Essa percepção pode ser um pouco subjetiva. Ainda não há um estudo que confirme se existe, de fato, uma diferença”, disse.

A diretora de Avaliação da Educação Básica do Inep, Hilda Linhares, afirma que uma das hipóteses consideradas pelo instituto é o impacto das formas de preparação dos estudantes, com maior uso de modelos padronizados e recursos automatizados. Segundo ela, esse tipo de treino tende a favorecer a inserção de repertórios pouco contextualizados ou mal articulados à argumentação.

De acordo com o Inep, o uso de modelos pré-fabricados já era passível de penalização em edições anteriores do exame. Palacios afirma que, à medida que esse tipo de treino se torna mais frequente, o tema ganha maior relevância no processo de correção. “Sempre esteve presente, mas a intensidade com que os estudantes vêm sendo treinados com modelos que serviriam para qualquer tema torna a questão cada vez mais relevante”, disse. Para ele, o assunto seguirá em debate nas próximas edições do exame.

Na Cartilha do Participante divulgada em outubro de 2025, o instituto dedicou um trecho específico ao alerta contra o uso de modelos padronizados, sob o título “Cuidado com o repertório de bolso!”. O material define o conceito como referências genéricas e memorizadas, utilizadas de forma automática, sem articulação consistente com o tema ou com a argumentação desenvolvida no texto.

Segundo o instituto, esse tipo de recurso pode comprometer a competência que avalia o uso de repertórios socioculturais, que exige referências pertinentes, contextualizadas e integradas ao ponto de vista defendido. Quando o corretor identifica a inserção decorada ou forçada de repertórios, o item pode ser considerado improdutivo e resultar em perda de pontos.

Linhares afirma que o conceito de “repertório de bolso” não representa uma mudança, mas a explicitação de práticas observadas há anos na correção. “Um dos critérios é que essas referências sejam pertinentes e estejam organicamente relacionadas à produção do estudante como um todo”, disse.

Apesar disso, estudantes relatam percepção de maior rigor neste ano e manifestam preocupação com a disputa por vagas. Uma novidade do Sisu 2026 é a consideração automática das notas das três últimas edições do Enem —2025, 2024 e 2023—, o que levou candidatos a temer competir com estudantes que obtiveram notas mais altas em anos anteriores.

Questionado sobre esse receio, Palacios afirma que não há risco de prejuízo aos participantes. Segundo ele, como a grade de pontuação e o gênero textual não sofreram alterações, os resultados são comparáveis entre si e seguros para uso no processo seletivo.

Entre professores de cursinhos, porém, a avaliação é de que a aplicação dos critérios se tornou mais exigente. No Curso Anglo, o professor e coordenador de redação Sérgio Paganini diz que o rigor maior já vinha sendo sinalizado desde 2024, mas se consolidou em 2025. Segundo ele, além da penalização de repertórios considerados automatizados, houve maior desconto no critério de coerência, o que pode ter levado a uma dupla perda de pontos em um mesmo texto.

Paganini também acredita que o tema da aplicação principal—”Perspectivas acerca do envelhecimento da sociedade brasileira”— exigia uma abordagem voltada a projeções futuras, e não apenas à descrição de causas ou problemas atuais. Redações que não atenderam a esse recorte podem ter sido penalizadas mesmo mantendo a estrutura.

Para o professor e coordenador de redação do Colégio e Curso pH, Thiago Braga, o combate a modelos prontos era esperado e tende a tornar a correção mais justa. “O aluno copiava um modelo e conseguia 800 ou 900 pontos. Isso perdeu eficácia”, afirmou. Segundo ele, há um mercado consolidado de venda de textos e repertórios padronizados, que durante anos produziu resultados.

Braga também questiona a queda no número de redações nota mil ao longo da última década. Em 2024, apenas 12 estudantes atingiram a pontuação máxima. “É estatisticamente impossível que apenas 12 pessoas, em um universo de milhões, tenham alcançado a proficiência máxima”, disse.

Essa queda no número de redações nota mil nos últimos anos serviu de termômetro para os cursinhos. Para o coordenador do Curso Pré-Vestibular Oficina do Estudante, Ricardo Marcio, professores que acompanham a evolução do Enem ao longo do tempo não identificaram grandes mudanças nas médias gerais das notas, mas já esperavam um impacto maior na pontuação máxima.

Já no Poliedro Curso, a coordenadora-geral de redação Gabrielle Cavalin diz que a definição do conceito de “repertório de bolso” e a sinalização de uma aplicação mais criteriosa da grade de correção são um avanço para o ensino da escrita no país. A professora diz que a compreensão mais precisa da correção depende da divulgação dos espelhos das redações.

A reportagem questionou o Inep sobre a data da divulgação das médias das provas, o número de redações nota mil e os espelhos, mas o órgão não deu uma previsão de quando isso deve acontecer.

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Fonte: Folha

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