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Em 27 anos de Enem, questões ligadas à infância e à adolescência já apareceram como tema das redações. Em 2025, quando o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) completa 35 anos, a proteção de crianças e jovens desponta como uma das principais apostas para o eixo temático da prova, segundo educadores ouvidos pela Folha.
O foco deve estar na vulnerabilidade social e na defesa de direitos, em um momento simbólico para o debate sobre políticas públicas voltadas à infância. Especialistas apontam a violência como um dos assuntos mais urgentes relacionados ao público jovem. Casos de bullying, agressões físicas, abuso sexual e negligência têm se tornado mais frequentes nas escolas e nas discussões sociais.
Entre os temas já cobrados no exame, aparecem “Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional?” (2000), “O trabalho infantil na realidade brasileira” (2005) e “Publicidade infantil em questão no Brasil” (2014).
Para além dessas abordagens, cresce a preocupação com a chamada “adultização” das crianças —processo em que meninas e meninos são expostos precocemente à linguagem, à estética e aos comportamentos adultos. O caso recente do influenciador Felca, embora ainda próximo à realização da prova, mostrou a urgência de discutir os limites da exposição infantil.
A pauta sobre infância e juventude também se conecta a temas como violência doméstica, saúde mental e convivência escolar. Para os educadores, o desafio é garantir à infância o que é da infância: tempo para brincar, aprender e se desenvolver plenamente.
Por que o eixo é importante
O eixo “crianças e adolescentes” é apontado como forte candidato por reunir aspectos de direitos humanos, políticas de prevenção e proteção social. O tema permite discutir educação socioemocional, capacitação de professores e o papel da comunidade escolar na formação dos jovens.
Dados do DataSUS mostram que a violência interpessoal nas escolas brasileiras tem crescido. O número de episódios registrados chegou a 15.759 em 2024, aumento de 23% em relação a 2023. Desse total, 2.273 (14%) foram casos de violência autoprovocada. O crescimento já era perceptível antes da pandemia, mas se intensificou a partir de 2022
A dimensão digital também deve aparecer no debate. Gabrielle Cavalin, coordenadora de redação do Poliedro Educação, lembra que o ECA Digital (Projeto de Lei 2628/2022) propõe novas regras para plataformas online, com mecanismos de denúncia e controles parentais —”um avanço necessário na atualização da legislação de proteção à infância”, diz.
Professores apontam ainda o uso excessivo de tecnologia como ameaça ao desenvolvimento emocional e cognitivo. André Barbosa, do Colégio Oficina do Estudante, afirma que a exposição constante às redes “afeta a autoestima, a percepção de mundo e a saúde mental dos jovens”.
A dependência digital é comparada por docentes ao vício. O consumo contínuo de conteúdo fútil e repetitivo tem levado ao chamado brain rot (“apodrecimento do cérebro”), associado à perda de concentração e de capacidade crítica.
Para Maria Aparecida Custódio, professora de redação no Objetivo, a crítica pode ser relacionada à ideia central de do livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, que retrata uma sociedade moldada pelo entretenimento constante, em que “divertir as crianças” serve para mantê-las conformadas.
A violência, tanto no ambiente escolar quanto no doméstico, continua sendo uma das principais vulnerabilidades da infância. Casos de bullying e intimidação, diz Cavalin, comprometem o desenvolvimento dos alunos e ampliam desigualdades.
Professores afirmam que o tema da redação pode abrir espaço para discutir políticas públicas de prevenção, programas de apoio emocional e ações de formação docente. No ambiente familiar, a violência doméstica também surge como foco possível, reunindo dados de agressões, medidas de proteção e o papel dos movimentos sociais, segundo Daniela Toffoli, professora de redação do Anglo.
Como o tema pode aparecer na redação
O Enem tende a recortar o eixo com foco em desafios coletivos e impactos sociais. Veja algumas possibilidades de formulação, segundo professores consultados:
| Tema sugerido | Escola/curso preparatório |
|---|---|
| O papel da sociedade na defesa dos direitos de crianças e adolescentes no mundo virtual | Poliedro |
| Os desafios no combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil | Bernoulli |
| Violência escolar: medidas para garantir uma escola segura e inclusiva | Anglo |
| Consequências sociais da adultização e os desafios para o enfrentamento no Brasil | Farias Brito |
| Os riscos da violência e da adultização precoce da infância | Objetivo |
Como estudar o tema
Professores recomendam que o aluno amplie o repertório e conecte o tema a leis, políticas públicas e debates éticos.
Conceitos-chave:
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Adultização da infância: exposição precoce de crianças à linguagem, estética e comportamentos adultos, muitas vezes estimulada pela mídia e pela internet.
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Cidadania digital: princípios de uso responsável e seguro das plataformas on-line.
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Vulnerabilidade social: risco aumentado de violência e negligência entre crianças pobres e periféricas.
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Proteção integral: princípio constitucional que garante o direito ao desenvolvimento pleno, à educação e ao lazer.
Dicas de reportagens da Folha para estudar
Leituras e referências culturais sugeridas:
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Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990) — base legal da proteção infantojuvenil.
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Projeto de Lei 2628/2022 (ECA Digital) — prevê mecanismos de denúncia e controle parental em plataformas.
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“A Fábrica de Cretinos Digitais” (Michel Desmurget) — aborda os efeitos das telas na cognição e no comportamento infantil.
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“Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) — reflexão sobre o controle social e a perda do pensamento crítico.
O que evitar
Educadores reforçam que, se o tema da redação do Enem 2025 abordar a proteção de crianças e adolescentes, o texto do candidato deve demonstrar embasamento e autenticidade. Fórmulas prontas e expressões genéricas, como “negligência estatal” ou “omissão da sociedade”, sem contextualização, enfraquecem o argumento e passam a impressão de superficialidade.
Outro erro comum é inventar dados ou citações para dar aparência de autoridade ao texto. Professores lembram que, além de antiético, esse tipo de recurso compromete a credibilidade da argumentação e pode prejudicar a nota final.
Também não adianta propor soluções inviáveis ou já previstas em lei. A criação de uma nova legislação, por exemplo, é desnecessária quando o próprio ECA já contempla as medidas de proteção e responsabilização.
Por fim, especialistas alertam que respostas simplistas —como atribuir a violência ou a exposição digital apenas à falta de atenção das famílias— desconsideram as causas estruturais do problema. A proposta de intervenção precisa ser realista, fundamentada e considerar o papel conjunto do Estado, da escola e da sociedade.
Este é o terceito de uma série de textos que abordam as principais apostas para o tema da redação do Enem 2025. Elas foram reunidas em oito eixos temáticos, que serão detalhados com dicas de educadores sobre o motivo da escolha, como se preparar, possíveis abordagens e erros a evitar durante o estudo e a realização da redação.
Os textos fazem parte do projeto Folha Estudantes, criado para ajudar jovens na preparação para o Enem e outros vestibulares. A Folha oferece assinatura gratuita para estudantes que se inscreverem no Enem; clique aqui para saber mais.
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Fonte: Folha
