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Nomear é preciso. Termos como violência obstétrica, feminicídio e assédio moral abriram clarões para que as vítimas encontrassem reconhecimento. Mesmo expressões menos dramáticas, como “mansplaining”, por exemplo —que é quando um cara acha que precisa te explicar como abre torneira—, cumprem sua função de conscientização.
Ao escrever rebaixamento estético feminino na coluna anterior, me dei conta de que era uma expressão que me ajudava a pensar uma das inúmeras formas de constrangimento bem conhecidas das mulheres.
Qualquer mulher, de qualquer classe social, aprende a “se cuidar”, leia-se: preocupar-se obsessivamente com a aparência, desde muito pequena. Nas periferias das cidades faltam asfalto e hospitais, mas nunca uma cabeleireira. Alisar, secar, enrolar, hidratar, tingir, esmaltar, o arsenal feminino para se sentir apresentável é de tirar o fôlego e a grana de qualquer uma.
Não se trata só de se fazer bonita, mas de ter que cumprir alguns códigos rígidos, como jamais ir a um casamento sem ter feito mão, cabelo e maquiagem. Em dia de festa, enquanto o cara toma uma breja com os amigos, elas passam por esse ritual.
É óbvio que, com toda essa tecnologia estética consumista, a maioria das mulheres está sempre muito mais apresentável do que um homem na mesma idade. Usamos produtos e fazemos procedimentos que os marmanjos nem sonham; nos preocupamos com o modelito, enquanto eles se gabam de vestir o que estiver ao alcance da mão.
Vivemos uma negação coletiva da beleza feminina em geral, assim como passamos séculos negando a beleza negra com o intuito de exercer uma das formas de poder mais insidiosas: desprezar o corpo do outro. O filme “Pantera Negra” é um marco por apresentar o óbvio: a beleza negra é um dos segredos mais mal guardados da colonização. Não existe “cabelo ruim”, mas existe gente ruim. E a ruindade aqui responde a uma agenda clara: sintam-se inferiorizadas, idolatrem a estética hegemônica do opressor, se alienem.
Pesquisa da Dove mostra que só 4% das mulheres ao redor do mundo se consideram bonitas, enquanto o Instituto Ideia aponta que 47% dos homens se acham bem na fita. Que espelho é esse para o qual os homens olham?
O nosso já conhecemos, é o espelho da Branca de Neve, personagem masculino que fala para a madrasta, lindíssima, que ela foi ultrapassada pela enteada mais jovem. Se invertermos o gênero das personagens, veremos o quão patético seria imaginar um conto no qual o padrasto manda matar o genro por este ser mais bonito. Entre mulheres, essa história convence há mais de dois séculos. É dela que somos reféns.
O discurso social faz corpo, porque as palavras intermedeiam nossa autoimagem. Mulheres são tratadas como se fossem intrinsecamente feias e gastam grande parte de seu tempo, dinheiro e amor-próprio tentando estar à altura de um padrão que foi feito para não ser alcançado. Ele serve para que permaneçam em dívida com os homens, suplicando olhares e aceitação.
O problema não é cuidar da aparência, isso pode ser uma curtição. O problema é a voz por trás do espelho mágico dizendo que não somos suficientes. É nesse conto de fadas que 96% das mulheres ainda acreditam.
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Fonte: Folha
