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Em palestra recente, fui interpelada por pais sobre a questão da “epidemia” de lesbianismo no ensino médio. Ao responder sobre o tema, não critiquei a escolha da palavra epidemia. Só depois uma amiga lésbica revelou minha falha. A escolha de uma palavra que associa o lesbianismo à doença e ao contágio precisa ser debatida, e era para isso que eu estava lá. Basicamente, minha amiga me apontou minha própria lesbofobia.
Na mesma palestra, defendi que os homens devem escutar as mulheres antes de rebater críticas femininas, afinal, a experiência delas não é diretamente acessível a eles. A mim coube escutar alguém que não é heterossexual como eu. Advogo que “dedo no olho e tapa na cara” é tão importante quanto o letramento.
Escutar implica não desqualificar a crítica, que é a primeira coisa que passa na cabeça (o famoso: “mas, ora, veja bem…”). Segundo, assumido o erro, abster-se de inverter o jogo, fazendo-se de vítima da vítima.
Algo como: “Sofro mais do que você pelo sofrimento que te impingi”. Essas defesas narcísicas existem e operam em nós, mas exigem ser desmascaradas e examinadas permanentemente. Só a escuta implicada poderá revelar se a crítica tem fundamento.
Sobre o tema da sexualidade adolescente, o que vemos hoje entre jovens é uma possibilidade maior de experimentá-la e torná-la visível. Essa é uma marca geracional, embora não alcance a todos, claro.
Há importantes diferenças entre os gêneros. O desejo feminino, por ser sempre subestimado, paradoxalmente cria a oportunidade para que as meninas vivam com mais liberdade sua sexualidade em experimentação. A vista grossa decorre da persistente ideia de que o lesbianismo é uma fase e de que, quando a mulher “encontrar o homem certo”, certamente se inclinará para ele.
Ora confundido com amizade entre meninas, ora como etapa a ser vencida, o amor lésbico padece da recusa de reconhecimento social. Sua falta de inteligibilidade decorre do seu potencial de resistência à ordem estabelecida, pois desnorteia o ideal de centralidade do homem. São mulheres que sofrem estupros “corretivos” por sua orientação sexual. Elas se beneficiam do cuidado, da sororidade e da intimidade cultivadas entre mulheres para enfrentar as violências que as cercam.
Já os meninos, que também estão se havendo com a mesma fase de descobertas, são tolhidos na esfera sexual de uma forma específica. Se eles têm mais liberdade sexual, é na condição de que seja heterossexual. A pressão por desempenho a que estão submetidos, fruto da superposição entre masculinidade e heterossexualidade, desemboca em violência.
Apavorados pelo risco de não se reconhecerem como homens em função de um desejo que lhes escapa, acabam por atacar a si e aos demais em busca de uma comprovação impossível para qualquer ser humano. Não temos domínio sobre nosso desejo; no máximo, decidimos o que dá e o que não dá para fazer com ele.
Desde Freud se reconhece que temos uma bissexualidade latente (regulada pelo sistema sexo-gênero, dirá Gayle Rubin). A adolescência é propícia a colocá-la à prova. O que vai decorrer daí, veremos.
Da minha parte, agradeço a crítica; sem ela, a escuta não avança.
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Fonte: Folha
