‘Palavras do ano’ já não dizem nada – 03/12/2025 – Sérgio Rodrigues

[ad_1]

A escolha da Palavra do Ano, instituição midiática anglófona que já teve sua graça, tem virado farinha no moinho das redes sociais.

A instituição nunca foi exatamente séria, sempre se equilibrou entre o científico e o popularesco. Mas já destacou palavras que iluminavam a realidade —pegada de carbono, selfie, xenofobia, emergência climática, pós-verdade.

Nos últimos anos, a velocidade do mundo digital tem excedido a das palavras. Estas vão de arrasto, ineptas para a crítica, a cenoura virtual sempre lá na frente.

O dicionário Oxford escolheu em 2022 e 2023, respectivamente, “goblin mode” (“modo duende”, algo como “com o foda-se ligado”) e “rizz” (gíria para carisma).

Os dicionários até têm lutado para transcender o plano dos modismos digitais, mas não é fácil. Onde mais se movimenta discurso em larga escala nos dias de hoje?

Todas as principais escolhas de 2025 são desse campo semântico. O Cambridge elegeu “parasocial”, nome das relações unilaterais que algumas pessoas travam com celebridades e chatbots.

O Collins optou por “vibe coding”, o ato de pedir a IAs que criem aplicativos e sites em vez de programá-los você mesmo. São escolhas honestas, tentativas de nomear o inominável mundo novo. No entanto, incapazes de transcender e comentar a realidade.

É como se a sobra de linguagem necessária para produzir sentido crítico-histórico tivesse sido abduzida pela máquina discursiva engendrada pelas big techs, que simula a novidade sem sair do lugar.

O Oxford anda empenhado em se redimir dos pecados. Ano passado escolheu “brain rot” –apodrecimento cerebral provocado pelo vício em telas. Excelente.

São palavras que falam do digital, mas têm potência crítica –e autocrítica. A escolha de “rage bait” em 2025 mostra o dicionário tentando avançar no mesmo caminho, mas com eficácia menor.

Há quantos anos come solto nas redes sociais o caça-clique que nos seduz pela indignação? Seu vírus vem do mundo internético pré-redes.

Mais desdentadas soam tais palavras porque este ano Trump quebrou toda a louça do país que foi a maior potência econômica, militar e cultural da Terra no último século. Não teria uma palavra, umazinha só, pra iluminar isso? Imigração? ICE? Fascismo?

Foi também o ano que viu “genocídio” se firmar hegemonicamente na consciência mundial como nome do que Israel fez e faz na Palestina.

E ainda não falamos do slop da IA, lixo que se espalhou de vez por todos os cantos da biosfera simbólica.

Haveria também uma escolha mais técnica, “workslop” –o lixo robótico de baixa densidade informacional que circula entre departamentos, sem resolver o problema em foco, virou questão séria no mundo corporativo.

Enfim, o colunista jura que não quer ensinar o Oxford a escolher palavras. Embora possa parecer, não é maluco. A ideia é só apontar uma queda na eficiência da linguagem pública para dar conta das coisas.

A crise da Palavra do Ano ilustra a crise maior, do próprio humanismo, num mundo em que a linguagem virou uma pasta com a qual a IA simula toda e qualquer linguagem, se retroalimentando ao infinito.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

[ad_2]

Fonte: Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *