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Em “Festa de Família” (1998), Thomas Vinterberg faz do aniversário de 60 anos do patriarca o momento de revelação dos abusos cometidos por ele contra os filhos, sob o olhar conivente da mãe. É o primeiro longa do movimento Dogma 95, e sua estética espartana potencializa o caráter indigesto do tema.
Não há amortecedor para o mal-estar, tampouco superação final. Apenas quem encarar a verdade, nomeando as violências e confrontando o abusador, poderá encontrar alguma forma de redenção, mas ao preço de romper laços familiares que se supunham imprescindíveis.
Há pelo menos duas questões que retornam sempre que nos defrontamos com esses casos. Uma diz respeito ao abusador: como os responsáveis pela proteção, pelo amor e pelo cuidado podem ser os maiores perpetradores de violências? A outra se direciona às vítimas: como se sustenta a “normalidade” convivencial entre algoz, vítima e testemunhas durante décadas de abusos?
Quando falamos em família, imaginamos o modelo ocidental e moderno. Na verdade, ele não é único e se mostra tão eficiente quanto uma roda quadrada. Vem acumulando efeitos nefastos ao longo dos últimos 500 anos. Há outras formas menos incestuosas, mas elas são demonizadas por servirem menos à lógica burguesa e patriarcal.
As violências encontram na família nuclear, ensimesmada e estruturalmente antissocial, um terreno fértil, porque ela se baseia numa lealdade insustentável. Seu lema é “nós contra a rapa”, o que obriga seus integrantes a manterem a coesão a qualquer preço. A regra é fazer vista grossa para pequenas e grandes violências em nome dela. Trata-se de um organismo que cobra de seus membros uma devoção acima da ética de cada um.
O abuso que explode nas manchetes de jornal e que escandaliza a todos é só o ponto extremo de uma linha que começa na tolerância a inúmeras cenas nunca devidamente problematizadas.
Assim, o tiozinho mão-boba salivando pelas meninas da família segue tendo lugar à mesa, Natal após Natal, sem que seu gesto seja denunciado ou tolhido. Comenta-se a licenciosidade do membro através do chiste, como forma de expiar a culpa das testemunhas e em prol da continuidade do núcleo. Por medo de molestar o molestador, aguenta-se tudo, esquecendo que a vítima cresce na certeza de que é ela que está errada. Se ele se insinuasse para os meninos, receberia o mesmo nível de tolerância? Todo assédio é, acima de tudo, um exercício de poder. Sabemos qual o gênero que deve aprender a se submeter desde pequeno.
Nos perguntamos por que o abusador é, muitas vezes, o cuidador principal. É na família que aprendemos a amar e a ser amados e, se amar é ser condescendente com o abuso, esse será o léxico transmitido a cada nova geração. Salvo alguma interferência que mude o rumo das coisas, a situação tende a se perpetuar.
Assunto tão indigesto quanto necessário, o reconhecimento de nossa participação no enredo das violências familiares, por ação ou omissão, é fundamental. Em vez de gastar nosso tempo só nos escandalizando com mais um caso, vale pensar no nível de tolerância à violência que estamos dispostos a ignorar em nome de nossas famílias.
Ele é o termômetro do risco que habita cada lar.
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Fonte: Folha
