O pacto contra o feminicídio – 09/02/2026 – Vera Iaconelli

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A campanha de lançamento do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio acertou em cheio nas escolhas. Não há mulheres espancadas; homens são chamados às falas, e a célebre música de Douglas Germano, na voz de Elza Soares, é um verdadeiro hino.

Acerta ao evitar a exposição de mulheres machucadas, pois nem toda violência é identificável em exames de corpo de delito e nem toda vítima se reconhece nessas imagens. Além disso, são imagens carregadas de um erotismo que a moda e os filmes não cansam de explorar.

O apelo aos homens, por sua vez, é promissor. Risca-se no chão uma linha que separa diferentes masculinidades. A ideia é que há mais virilidade em cuidar e proteger do que em submeter uma mulher. A escolha por homens de aparência corriqueira e não caricata também é bem-vinda. O agressor é alguém próximo, uma pessoa comum.

A masculinidade, desde a modernidade, tem sido associada ao submetimento das mulheres aos homens. Essa versão foi tida como “natural”, como são todas as ideologias. Pesquisas antropológicas provam, no entanto, que, embora diferenças de papel entre os gêneros sempre tenham existido, nem sempre foram tratadas como diferenças de valor e poder. Tampouco deram lugar ao feminicídio em massa que se vê hoje. (Vale ler os trabalhos de David Wengrow, Sarah Blaffer Hrdy, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí e Rita Segato, entre outros.)

Para pensar futuros desdobramentos na campanha, vale discutir com quais homens se está falando. A resposta é complexa: com todos e com nenhum. Diz a expressão popular que, “na prisão, ninguém é culpado”. Pesquisas revelam que agressores não pensam diferente: “Não tenho culpa, foi ela que me tirou do sério” é o mantra deles.

O homem que é capaz de um ato de bravura para defender uma mulher se considera justificado quando ele mesmo comete o delito. Daí um dos trabalhos centrais no tratamento psicológico de vítimas e agressores ser o reconhecimento e a nomeação de uma violência que é negada contra todas as evidências.

No Itaim Paulista, extremo leste da capital, encontra-se o único ambulatório especializado no atendimento integrado de vítimas de violência sexual da América Latina. Embora existam atendimentos a essa população em hospitais e universidades, só existe essa clínica pública, ligada ao SUS, especializada nesses casos, com tratamentos continuados. Ela conta com assistentes sociais, enfermeiras, psiquiatras, psicólogas e educadoras físicas que fazem entre 6.000 e 7.000 atendimentos por mês a vítimas e agressores.

O custo de operações como essas é irrisório para os cofres públicos, enquanto os efeitos são potentes e transgeracionais. São esses trabalhos que permitem que vítimas e algozes admitam a teia de violências na qual estão enredados, enfrentem o medo, a vergonha, a dor e assumam responsabilidades. Essas intervenções rompem ciclos de violência históricos.

Ações como a Lei Maria da Penha, ordens de restrição, casas abrigo de acolhimento de vítimas, programas preventivos em escolas e treinamento policiais especializados são sabidamente eficazes e precisam ser sustentados se quisermos levar a sério o objetivo de salvar vidas.

Em nossa sociedade, quando se trata de violência sexual e de gênero, seja por ação, seja por omissão, ninguém pode se considerar inocente.


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Fonte: Folha

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