‘O Eternauta’ ou ‘The Last of Us’? – 26/05/2025 – Vera Iaconelli

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Tem sido curioso ver pessoas que não gostam de obras de ficção científica distópica se tornarem fãs da série “O Eternauta” (Netflix). A obra, baseada na história em quadrinhos do argentino Héctor Germán Oesterheld, publicada em 1957, marcou toda uma geração. Ele previu e denunciou, com seu trabalho, o autoritarismo que ceifaria sua família 20 anos depois.

Oesterheld, suas quatro filhas — Estela, Diana, Marina e Beatriz— e os genros foram mortos pelo governo militar. Diana e Marina, aos 23 e 20 anos, estavam grávidas e, como se sabe, era hábito aguardar o nascimento das crianças antes de matar suas mães, para que fossem adotadas por famílias de militares.

A mãe das meninas, Elsa Sánchez de Oesterheld, faleceu em 2015 sem perder a esperança de que os netos fossem encontrados e viessem a saber sua verdadeira história. As Avós da Praça de Maio seguem buscando o paradeiro das crianças sequestradas, que estariam na casa dos 50 anos hoje.

A série é estrelada por Ricardo Darín, ótimo no mesmo papel que vem interpretando há 40 anos, e funciona como antídoto ao cinismo que estamos acostumados a consumir, oriundo do Norte Global.

Diferentemente de “The Last of Us”, no qual o “cada um por si” é a regra, o mantra aqui é a força coletiva lutando contra a alienação e a arbitrariedade. Se, nos moldes norte-americanos, os gestos humanos estão escrupulosamente reservados aos poucos que compõem a “família” formada em torno do herói, no exemplar latino o cidadão comum, totalmente desconhecido, também deve ser salvo. A lógica é clara: não há salvamento individual entre humanos, pois somos uma espécie relacional que depende da vida em sociedade.

Num momento em que as saídas cínicas e individualistas se revelam tão destrutivas quanto populares, dá para entender o alívio causado por uma narrativa que reafirma nossa melhor faceta. A solidariedade em que Oesterheld acreditava, e que lhe custou a vida e a descendência, se torna altamente subversiva em tempos que apostam na competição como modo de existência.

“O Eternauta” é um verdadeiro marco em termos criativos, tecnológicos e de produção. Encanta por representar o humor latino, pelas locações tão próximas de nós e também pelo orgulho de vermos do que o cinema é capaz, mesmo sob um governo anticultura e retrógrado.

E, para não perdermos o hábito de nos compararmos aos “hermanos”, fica a lembrança das premiações recentes do cinema brasileiro pelo filme “Ainda Estou Aqui”.

Some-se a isso a maravilhosa notícia de que Wagner Moura e Kleber Mendonça ganharam a Palma de Ouro por atuação e direção, sábado (24), em Cannes, e veremos que a indústria cinematográfica da América Latina tem muito o que celebrar.

Se juntarmos as três obras —”O Eternauta”, “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”—, veremos que são trabalhos que encaram de frente o trauma da ditadura e a resistência a ela. Mais do que isso, elas são, por si sós, formas de resistência, mostrando que, ao recuperar a história e narrá-la coletivamente, encontramos saídas menos cínicas para nossos impasses.

Ao contrário da visão norte-americana, que corre o risco de apostar que valeria de alguma coisa ser “o” último de nós. Esse, a rigor, por seu isolamento, seria nenhum.


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Fonte: Folha

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