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Eu estava num festival literário —o Fliparacatu, organizado por Afonso Borges na cidade histórica do noroeste de Minas Gerais, uma grande festa do espírito humano com dezenas de autoras e autores incríveis— quando morreu o maior escritor brasileiro vivo.
O superlativo não era unânime. Luis Fernando Verissimo foi o tal, o cara, em dois campos —um de gênero, a crônica, e outro de registro, o humor— que a crítica acadêmica tende a menosprezar.
Registre-se que essa postura é no mínimo curiosa no país de Machado de Assis, reconhecido como nosso maior escritor e cracaço nos dois fundamentos. Mas essa é outra conversa.
No sábado (30/8), chorei desconsoladamente. Meio atarantado, saí repetindo meu superlativo para todo mundo, inclusive o auditório cheio da mesa que compartilhei aquela tarde com Giovana Madalosso e Luiz Mauricio Azevedo.
LFV, que tinha o superlativo no nome, morreu como o maior escritor brasileiro vivo porque operou a mais difícil das fusões —entre estilização da linguagem e poder de comunicação com os leitores.
É duvidoso que a literatura deva “servir” para alguma coisa —além, claro, da criação de um objeto estético. Solta no mundo, acaba por ter um monte de propósitos, da mensagem política ao entretenimento.
Tanto este como aquela faziam parte do cardápio de LFV, que bom. Mas acho defensável a ideia de que, antes de tudo isso, a literatura deve zelar pelo fio da linguagem, tirando das palavras o limo de banalidade que vai se grudando nelas no dia a dia.
Claro que o trabalho de rigor formal não ficava visível nas páginas da imprensa em que LFV se multiplicava. Isso ele escondia, como um violinista oculta o sofrimento necessário para tocar a “Chaconne” de Bach.
E aquilo vinha aliado a uma produtividade insana. Perguntei como ele fazia para escrever quatro colunas por semana, fora romances e encomendas avulsas —era essa a conta na época, início do século. “O pânico ajuda muito”, respondeu.
E assim o filho de Erico foi forjando com a língua culto-coloquial brasileira um veículo literário perfeito —e válido em todo o território nacional— para o espírito crítico e a graça, um lirismo meio envergonhado vazando nas frestas de um ceticismo implacável, mas sempre humano e humanista —e engraçado pacas. Inteligência textual em altíssimo nível.
“Minha relação com a morte é esquecer que ela existe. E espero que ela faça o mesmo comigo”, brincava. Como vimos (mas desconfio que ele já sabia), não funcionou.
Além da perda de um mestre e amigo, lamento que a morte tenha decidido se vingar com tanta crueldade do esquecimento a que tinha sido relegada.
Se a indesejada esperasse só mais uns dias, LFV teria o prazer de ver a condenação inédita de Jair Bolsonaro e sua gangue.
Gente como essa sempre foi seu alvo. Aquela caneta merecia estar presente nesse grande momento cívico. Caso lúcida, seriam dela as melhores tiradas.
A festa do espírito turvada em Paracatu logo explode outra vez. Meu primeiro brinde, em forma de agradecimento eterno, vai pro Luis Fernando Verissimo.
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Fonte: Folha
