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Não há quem não reclame do excesso de estímulo e da escassez de tempo para lidar com a vida desde a entrada na era mídia. Dormimos mal, corremos o tempo todo, trepamos mal, comemos mal; enfim, as reclamações se sucedem, ainda que venham junto com uma excitação pelas métricas alcançáveis na virtualidade.
Até dessas reclamações estamos cansados, mas a cenoura na frente do burro segue firme em sua eficiência de nos fazer seguir.
Com esse queixume, corre-se o risco de cair na nostalgia de um tempo que vai se tornando mítico, no qual atendia-se o telefone de vez em quando —a chamada nem sempre era para nós— e no qual ligações internacionais eram racionadas devido ao custo. O programa escolhido na TV era disputado a tapa, e quem vencia, quase sempre os mais velhos, submetia os demais a seu gosto. Mas, longe de qualquer traço de luto pelas antigas tecnologias —adoro poder ver e falar com minhas filhas em outro continente a qualquer hora—, sinto falta do tempo.
O tempo, essa matéria da qual a vida é feita e com quem tentamos negociar sem sucesso, nos falta como nunca. Em nome de ganhá-lo, costumamos criar novas tecnologias que aceleram as tarefas do dia a dia, pois nos ressentimos por gastá-lo em ocupações que poderiam ser agilizadas ou terceirizadas.
Não perdemos mais tempo na fila do banco, indo às bibliotecas emprestar livros, nas gôndolas do supermercado, na bilheteria do cinema. Tudo isso conseguimos resolver com um clique, o que pode ser bem gratificante. Daí os aplicativos fazerem fortuna, poupando-nos de ter que pensar muito, a ponto de terceirizarmos o próprio pensamento, como se vê no uso da AI.
Adoramos facilitar a vida, mas continuamos com a sensação de que perdemos tempo.
Seres vivos estão submetidos à duração: nascem, vivem e morrem. Aqueles que adquiriram consciência de sua própria existência, ou seja, de sua finitude, tiveram que fazer algo com esse fato estarrecedor. Daí a pergunta lindamente expressa por Caetano: “Existirmos, a que será que se destina?”. Pergunta que jamais martirizará seu animal doméstico, embora ele também viva, sinta e se comunique.
Esquartejamos o tempo no afã de exercer algum controle sobre ele, mas, no campo subjetivo, a experiência é outra. Vale escutar a entrevista que o psicanalista Leopoldo Nosek deu a Eduardo Sombini, da Ilustríssima, sobre o tema.
Também tivemos a recente coluna de Mário Sérgio Conti sobre a obra de Arvo Pärt, na qual ele apresenta as interpretações contraditórias que se fazem da obra desse que é considerado o maior compositor erudito vivo.
Críticas à parte —não teria como julgá-las—, a experiência de escutar Pärt nos remete diretamente às formas de habitar o tempo. Sua música não aponta para a superação, para o desenvolvimento, sequer para o desfecho: trata-se de um presente que se eterniza. Sem a melancolia de um passado ou a ansiedade pelo futuro.
É impossível apreciar uma obra como a de Pärt com o olho na tela. Ouvi-lo é reconhecer que existem outras formas de se haver com o que está para além da nossa competência modificar: morreremos, haja o que houver.
Mais do que adoecimento, não se pode negar que estamos pagando os gagets da era mídia com a alma.
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Fonte: Folha
