Espelho partido em 2018 nos deu sete anos de azar – 24/11/2025 – Vera Iaconelli

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Há sete anos, no segundo turno da eleição de 2018, fomos obrigados a olhar para uma imagem de nós mesmos que pouco reconhecemos. Um tipo como Bolsonaro era eleito democraticamente para representar nosso país. Que país era esse, afinal?

Fundado sobre interesses antagônicos, falar sobre o Brasil é falar de um sintoma. Como colônia, existia para abastecer a matriz com todas as suas riquezas naturais e humanas, no caso, indígenas. Para melhor seguir essa função extrativista, foi utilizada a escravização de povos africanos. Está aí “Um Defeito de Cor”, da imortal Ana Maria Gonçalves, para nos arrebatar com uma história cuja atualidade o massacre da Penha só vem confirmar.

Já o clássico “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa —que estreia como documentário nos cinemas—, nos ajuda a pensar o choque dos discursos. O povo que estava aqui nunca entendeu os “comedores de terra” que chegaram com as caravelas.

Nesse processo de colonização, houve quem, cansado da expropriação em favor de Portugal, resolvesse assumir o país como exploração própria. Até acreditavam amar o Brasil, mas viviam na nostalgia de um além-mar. Abundam exemplos de políticos, empresários e cidadãos comuns que seguem extraindo o que podem daqui, mas que sonham em morar fora. A ironia é que, depois de terem sugado tudo por nossas bandas, querem morar em países nos quais a lei impede que façam o que fazem por aqui. Falam mal do Brasil como se não tivessem qualquer relação com as mazelas que promovem e mantêm.

Do outro lado desse espectro, temos as Marinas Silvas, essas mulheres que se orgulham de sua origem, não têm nostalgia de tempos e lugares que não lhes dizem respeito. Marina Silva escolhe a ética do bem comum, que se traduz na luta pelas condições materiais e simbólicas de vida no planeta.

Para além das patriotadas e mesmo do humanismo, nossa ministra luta pelo bem da vida, não apenas em sua terra, mas na Terra. Não apenas dos seres humanos, mas dos seres vivos. Ela sabe que pensar a vida no planeta restrita ao quintal de cada país funciona tanto quanto funcionava criar área de fumantes e de não fumantes dentro do mesmo avião.

Essas duas linhas de força, extrativista de um lado e comunitarista de outro, são fundamento da nossa história e assombram nosso presente. Elas se degladiam, em rounds alternados, nos obrigando a nunca baixar a guarda.

Hoje, grande parte do país —e do mundo democrático— comemora a prisão do pior presidente eleito de nossa história. É um momento no qual o Brasil vê no espelho outra face de si mesmo, que nunca deixa de estar lá, mas que submerge a cada vez que nossa herança autoritária, escravocrata e colonial toma a frente.

No mesmo dia em que Marina Silva era ovacionada por seu trabalho em prol do planeta, que passa por salvar povos originários e nosso país, assistíamos à prisão de Bolsonaro. Por essas e outras, numa reviravolta que nos deixa de queixo caído, o Brasil se tornou a maior democracia da atualidade.

Paul Preciado, ao responder sobre o que é mentira e o que é verdade diante das fake news, afirma que a pergunta certa a se fazer não é essa. O que deveríamos nos perguntar é “que mundo queremos?”.

Eu quero um mundo de Marinas ovacionadas e Bolsonaros –e seus comparsas– presos.


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Fonte: Folha

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