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Foram as mulheres que chacoalharam a estrutura da qual os homens estão caindo. Essa queda, que poderia ser apenas um feliz reajuste de posições, está associada ao alarmante aumento de feminicídios. É disso que trata esse ato bárbaro: inconformados com a descida da gangorra, preferem matar a conviver com a insurgência feminina.
Assim também é o branco que se diz não racista, usando como justificativa a relação “cordial” que tem com as pessoas negras à sua volta, sem admitir que essas costumam estar em posição de subalternidade. Na hora em que negros/as se apresentam como diretores de escola, professores, médicos, consumidores, ou seja, numa relação horizontal, a coisa muda. A regra é clara: se cada um permanece no seu quadrado, o contato pode até ser caloroso; pisou fora da risca, a violência aparece. Com a crescente mobilidade socioeconômica, essa dinâmica se torna mais explosiva.
Mas, voltando aos meninos: o que se tenta preservar quando se cometem violências que vão do desrespeito ao feminicídio? Desde que um menino nasce, existe um esforço coletivo para convencê-lo de que tem direitos inalienáveis sobre os demais. Se ele for branco, isso inclui mulheres brancas e pessoas não brancas de ambos os gêneros. Se ele for negro, estarão abaixo dele mulheres não brancas. A ideia de hierarquia entre essas relações é transmitida desde o chá revelação, seja nas famílias progressistas, seja nas conservadoras. As primeiras transmitirão inconscientemente o que as segundas transmitirão com orgulho.
O Eu, do lado dos meninos, é incensado pela ideia de direito natural: poder sobre os demais, coragem, liderança, força e inteligência. Se não for inteligente, pode compensar com a força. Do lado das meninas, são inflacionadas a aparência, a capacidade de cuidar de si e dos outros, a doçura, e até mesmo a inteligência (desde que não seja usada para confrontar os homens).
Acontece que o Eu é a estrutura mais instável e frágil de que dispomos para nos assegurarmos de quem somos. Assumir suas limitações é uma das maneiras saudáveis de aguentarmos o atrito que as relações afetivas geram e que fere nosso narcisismo. Os meninos, no entanto, são enganados desde sempre, sendo levados a crer na fantasia da grandeza da imagem que fazem de si.
Não há problema algum que se espere deles comportamentos diferentes dos das meninas, essas são convenções entre outras. É a ideia de superioridade que os fragiliza e os torna perigosos e, no geral, inconvenientes. Pensemos no mais novo apelido de Trump: Taco, sigla para “Trump always chickens out” (Trump sempre amarela). O nome revela que a nudez do rei é de conhecimento de todos e, ainda assim, ele foi escolhido para representar a nação mais poderosa da atualidade. Prova de que o truque de bombar narcisismos funciona, ainda que ao preço da devastação social.
Homens são enganados por não aprenderem o alívio que dá se reconhecer um entre outros. Um que é sempre único e insubstituível: nem melhor, nem pior que ninguém.
Nesta semana, Marina Silva, uma das mulheres mais influentes do mundo, teve que escutar impropérios de alguém que não significará nada para a posteridade, quiçá para sua própria descendência. Ótimo exemplo de como a suposição de superioridade masculina fragiliza o sujeito que a encarna e exige o uso de violência para ser mantida.
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Fonte: Folha
