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Até pouco tempo não fazia muito sentido uma mulher se perguntar sobre ter ou não filhos. O relógio biológico tiquetaqueava, lembrando que óvulos e úteros têm prazo de validade e que uma mulher sem filhos é “um jardim sem flores”. Nesse sentido, a prole poderia ser tão obrigatória quanto indesejável. Apenas um fato da vida a ser cumprido.
A pressão pela maternidade serve para obrigar mulheres a seguirem sem refletir sobre o rojão que recai sobre elas, mesmo quando a empreitada é do casal. Embora estejamos num momento histórico no qual os homens estão sendo chamados às falas como pais e a desfaçatez com a qual abandonam total ou parcialmente a prole seja cada vez mais denunciada, vai demorar muito para que responsabilidades sejam equalizadas. E poupem-nos dos exemplos de pais igualitariamente participativos, eles não enchem o estádio de futebol da cidade onde vivem.
Isso significa que, se você quiser ser mãe hoje, deve estar ciente de que fará parte de uma relação social das mais injustas, sem perspectiva de se tornar equânime tão cedo. Só um desejo singular no exercício da maternidade será capaz de justificar uma escolha que, de outra forma, se mostra uma cilada.
O Estado, que mal se digna a passar a licença-paternidade de 20 dias, não estará lá para você. Não bastasse o abandono, mães são julgadas no tribunal da internet e da família sem dó. Os que se ausentam aparecerão para acusá-las de serem narcisistas-incapazes…
O próprio direito de escolha reprodutiva não é garantido. Pouquíssimas entre nós têm acesso a métodos contraceptivos eficientes e à interrupção segura da gravidez. Mesmo as que têm acesso a um aborto sem risco à vida ou à liberdade —leia-se mulheres brancas e ricas— podem considerar o procedimento incompatível com suas crenças.
Resumo da ópera: não esperem da sociedade, dos homens e do Estado aquilo que eles deveriam fazer. Essa luta é histórica e não estará resolvida quando você tiver seu filho nos próximos anos. Daí a importância de nos perguntarmos em nome de que teríamos filhos hoje. Sem buscar respondê-la, podemos afundar num poço de ressentimento, fruto do autoengano.
Para além das precárias condições materiais para evitar gravidezes, as quais devemos seguir denunciando, temos as insondáveis razões psíquicas para mantê-las. Recomendo vivamente o filme, ainda em cartaz, “Jovens Mães”, dos irmãos Dardenne, um primor. Nele vemos motivações inconscientes que se apresentam nessa escolha, mesmo para quem tem acesso à contracepção e ao aborto. Nem sempre se trata de ter um filho, por vezes, é apenas uma pergunta sobre nossa origem.
De minha parte, passei pelos perrengues esperados por minha geração, raça e classe para ter minhas filhas. Ainda que tenha vivido pressões infinitamente menores do que a maioria das mulheres brasileiras, minha maternidade não foi isenta de sofrimento e injustiças, tampouco de alegria e de realizações.
Pressão de gênero, imperativo biológico, amor por um companheiro/a, prova de feminilidade, tentativa de reparação, pergunta sobre a origem, apelo por cuidado fazem parte do jogo. Mas não devem suplantar o desejo de se responsabilizar pela existência e criação de alguém.
Sem essa insondável ousadia amorosa, melhor não tê-los.
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Fonte: Folha
