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O ensino médio concentra o peso de grandes decisões. Em três anos, estudantes se veem diante de um turbilhão de mudanças. No ano final dessa jornada escolar, tudo parece se condensar em expectativas, sonhos e pressão de definir o futuro acadêmico e profissional por meio de provas.
Para quem está nessa fase, cada questão envolve uma complexidade que vai além do conteúdo cobrado. Com isso, a ansiedade e o nervosismo aparecem, afetando jovens que, muitas vezes, ainda não estão preparados para essa carga.
Com objetivo de passar em uma universidade pública, Gabrielle Salis, 24, começou a prestar vestibular ainda em 2017, quando cursava o terceiro ano do ensino médio. Após 44 processos seletivos em quatro anos, ela conseguiu a tão sonhada vaga no curso de medicina da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Se antes se considerava uma pessoa pouco ansiosa, a pressão dos exames transformou esse cenário. “Era como se o peso do mundo estivesse nas suas costas, porque [ser aprovado] é um valor extremamente alto. Mesmo acertando 80% da prova, não é suficiente. O vestibular é extremamente ansiogênico.”
A estudante conta ter tido dificuldades de encontrar o equilíbrio nos estudos no primeiro ano de cursinho, o que acabou prejudicando sua saúde mental.
Gabrielle conta que, nesse período, abriu mão de redes sociais acreditando que o isolamento e a intensidade dos estudos eram necessários para alcançar a aprovação. “Eu achava que a vida era isso, eu tinha que estudar horrores. Não tive equilíbrio, não cuidei da minha saúde mental.”
Conforme mostrou a Folha em maio de 2024, pela primeira vez desde o início dos registros, crianças e adolescentes superaram os adultos nos índices de atendimento por transtornos de ansiedade no Brasil.
Segundo especialistas, a ansiedade durante o período de vestibular é comum, mas pode se tornar um problema quando começa a afetar o desempenho e o bem-estar do estudante.
Em meio a pressão das provas, muitos têm dificuldade para identificar sozinhos o que significa manter esse equilíbrio. A partir disso, o papel das escolas e das famílias se torna fundamental para oferecer suporte emocional e orientação.
Embora muitas vezes evitem interferir, os pais precisam se envolver de forma ativa no período que antecede os exames. Porém, isso deve ser feito com cuidado para não gerar ainda mais pressão.
“Às vezes eu ouço os pais dizerem que não importa a escolha dos filhos, desde que eles sejam felizes. Mas esse ‘desde que sejam felizes’ é uma baita pressão para o adolescente”, afirma Manoela Ziebell, orientadora profissional e professora do curso de psicologia da PUC-RS.
Segundo Ziebell, manter uma comunicação clara e demonstrar disponibilidade são atitudes fundamentais dos responsáveis para que o estudante se sinta apoiado.
“O melhor que podem fazer é se mostrar disponíveis e ajudar da maneira que o filho precisa, e não como eles acham que devem ajudar. Para isso, as conversas são importantes”, afirma.
Apesar do medo de não ser aprovada, Gabrielle conta que compreendeu que, embora o vestibular exigisse esforço, havia limites que não dependiam apenas dela. “Eu estava me entregando, fazendo o melhor que podia. A partir daí, era algo que não estava mais no meu controle.”
A pressão na escolha do curso e da futura profissão torna essa fase ainda mais angustiante. A ideia de que uma decisão tomada agora definirá toda a vida profissional, somada ao medo de errar, intensifica a carga emocional em um momento já marcado por várias incertezas.
No entanto, Ziebell ressalta que compreender a escolha do curso como apenas uma entre muitas outras decisões que virão pode trazer mais leveza ao processo. “Entender que as escolhas serão feitas ao longo da vida, e que elas vão mudar, ajuda a tirar o peso desse momento.”
Além da exigência dos estudos, comparações constante com colegas podem intensificar sentimentos de ansiedade e insegurança. Esse comportamento, muitas vezes involuntário, é reflexo do ambiente competitivo que cerca os processos seletivos.
Gabriel Jie Bang, 28, atualmente no terceiro ano do curso de medicina, lembra como esses fatores impactaram a sua trajetória. “Eu me comparava bastante com os outros candidatos, em função do pouco tempo que eu tinha para estudar e das coisas que aconteceram ao longo da minha vida.”
Luciana Szymanski, psicóloga e vice-coordenadora do programa de psicologia da educação da PUC-SP, afirma que o impacto emocional desta etapa é diferente de acordo com o contexto de cada candidato.
“Há estudantes que foram preparados desde cedo, que estudaram em escolas com boa estrutura e contam com redes de apoio. Mesmo assim, passam por dificuldades. Mas a experiência de quem não tem essas mesmas condições é mais árdua”, explica.
A psicóloga critica o modelo atual do vestibular por ser excludente e defende o estudo coletivo como alternativa à pressão individual. “Ampliar horizontes e construir redes de apoio são saídas. Mesmo com a concorrência, estudar em grupo fortalece e ajuda mais do que enfrentar o processo sozinho.”
Após oito anos de tentativas, Bang conquistou o primeiro lugar no vestibular da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto).
Para lidar com a ansiedade e nervosismo, o estudante aprendeu a respeitar seus limites. “Tentei entender que minha trajetória era diferente. Busquei equilíbrio entre trabalho, estudo, descanso e momentos de lazer, porque tudo isso é importante.”
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Fonte: Folha
