Graduação interdisciplinar ajuda aluno a escolher carreira – 03/06/2025 – Educação

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O estudante Gabriel Souza, 27, de Mauá (Grande SP), terminou o ensino médio sem saber ao certo qual carreira seguir. Interessado em engenharia, mas inseguro sobre qual especialidade escolher, optou pela UFABC (Universidade Federal do ABC), que adota o bacharelado interdisciplinar —sistema em que o estudante começa por uma formação ampla e só depois decide o caminho definitivo.

“O mundo e as circunstâncias deram uma reviravolta. No curso, percebi que realmente gostava de engenharia. Mas descobri também o prazer de lecionar, de falar de ciência, de compartilhar conhecimento. Me descobri professor, e hoje estou matriculado na licenciatura”, conta.

Perto de se formar em ciências biológicas, ele afirma que a principal lição foi aprender a ouvir a si mesmo, sem se prender a expectativas externas. “É importante não negar novos interesses que surgem durante a formação”, diz.

Casos como o de Gabriel são comuns. A dificuldade de escolher um curso superior tem levado instituições públicas e privadas a adotar modelos mais flexíveis, com formação interdisciplinar e ciclos básicos, que permitem ao estudante amadurecer sua escolha já dentro da universidade.

O pioneirismo no Brasil veio com a UFABC, que implantou o BI (bacharelado interdisciplinar) em 2006 com o objetivo de ampliar o acesso ao ensino superior e atender a realidade dos filhos de trabalhadores da região do ABC. Naquele ano, a universidade começou com 500 vagas. Hoje, oferece 2.106.

Atualmente, de acordo com o Cadastro e-MEC, há cerca de 150 cursos indisciplinares no Brasil. Além da UFABC, faculdades públicas como a Unifesp (federal de São Paulo), a UFBA (Bahia), UFJF (Juiz de Fora, MG) e UFSC (Santa Catarina) e particulares como a PUC-Campinas e PUC do Paraná já adotaram o formato em algumas de suas áreas de conhecimento.

Para Fernanda Cardoso, pró-reitora de Graduação da UFABC, o modelo estimula a autonomia dos estudantes na construção da própria trajetória acadêmica. “Muitos alunos já chegam à universidade trabalhando ou começam a estagiar logo no início. A flexibilidade permite que eles organizem a carga horária conforme a rotina e sigam estudando”, afirma.

Na UFABC, não há vestibular direto para cursos como engenharia, biologia ou relações internacionais. Todos os ingressantes entram por meio de formações interdisciplinares: o BCT (bacharelado em ciência e tecnologia), o BCH (bacharelado em ciências e humanidades) e duas licenciaturas interdisciplinares. Esses cursos já conferem diplomas de graduação e não funcionam apenas como etapas para carreiras tradicionais.

A estudante Andressa da Silva, 21, também passou pelo ciclo básico. Inicialmente interessada em relações internacionais, descobriu uma afinidade maior com economia ao longo do curso. “Isso seria muito difícil de perceber em uma universidade tradicional”, diz.

Segundo Cardoso, a formação tradicional tende a superespecializar o estudante, moldando sua forma de pensar a partir de uma única área do conhecimento. Para ela, embora esse modelo tenha sido útil por muito tempo, ele pode se tornar um risco em um mundo em constante transformação. “De uma hora para outra, tudo muda, e aquilo que era prioritário há dez anos pode deixar de ser. Se o profissional não desenvolve flexibilidade de pensamento e capacidade de articular saberes diversos, terá dificuldade para lidar com problemas novos e complexos”, afirma.

Universidades particulares também testam o formato. A PUCPR, por exemplo, lançou em 2023 o Open Academy, modelo que permite ao aluno, durante seis meses a um ano, explorar diferentes áreas do conhecimento antes de definir o curso definitivo.

Maria Fernanda Albertoni, 18, diz que passou o ensino médio sem saber o que cursar. “Era muito triste ver todo mundo já certo do que queria fazer e eu ainda indecisa”, conta. “Se não fosse o ciclo básico, hoje estaria infeliz em arquitetura, minha primeira opção.” Aluna do primeiro semestre, ela planeja ficar mais um período no Open Academy, enquanto segue explorando áreas antes de escolher uma graduação.

INSPIRAÇÃO INTERNACIONAL

O modelo é comum nos colleges dos Estados Unidos. Segundo Cardoso, embora o BI da UFABC não tenha se inspirado diretamente nesse formato, há semelhanças com as universidades norte-americanas.

Na PUCPR, a inspiração é explícita. O ciclo básico segue o modelo das liberal arts, tradição do ensino superior nos EUA. A instituição mantém, inclusive, um programa em parceria com a Kent State University, chamado American Academy, em que os estudantes cursam o ciclo básico no Brasil e depois escolhem o curso —e o país— onde pretendem concluir a graduação.

Beatriz Magalhães, 21, ingressou no programa com o objetivo de expandir seu interesse pela área de videogames fora do Brasil, onde vê mais oportunidades. Durante o ciclo básico, no entanto, passou a se interessar por engenharia. “Gostei muito das aulas nesse período. Também tive contato com tradução e educação, mas as aulas de engenharia me chamaram mais atenção”, conta. Após essa etapa inicial, ela decidiu se mudar para os Estados Unidos e continuar os estudos com os professores da Kent State.

Para o diretor de Educação Personalizada da PUCPR, Paulo Baptista, a principal vantagem do modelo está na diversidade de experiências proporcionadas. “O estudante convive com colegas de perfis diversos, cursa disciplinas fora de sua zona de conforto e interage com professores estrangeiros. Isso amplia sua formação de forma significativa.”

Apesar da expansão, o modelo ainda encontra resistência dentro das instituições. De acordo com Cardoso, muitos professores formados em universidades tradicionais brasileiras têm dificuldade de se adaptar ao sistema interdisciplinar e à ausência de pré-requisitos rígidos.

“Mas acredito que, quando tivermos uma predominância de profissionais formados nesse modelo, estaremos prontos para dar o próximo passo na consolidação dessa proposta.”

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Fonte: Folha

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