Família é território ao qual nem sempre se pode ou deve voltar – 06/04/2026 – Vera Iaconelli

[ad_1]

As circunstâncias que levam à imigração vão das mais festivas às mais aterrorizantes. Casar com um estrangeiro/a, ganhar uma bolsa de estudos ou receber uma oferta de emprego implicam o direito de escolha, ainda que envolvam perdas. Esses imigrantes muitas vezes relatam a ambivalência de se sentirem felizes, ou pelo menos seguros, em terra estranha, ao mesmo tempo em que sofrem nostalgia do lugar de onde vieram.

Do outro lado, estão as situações-limite nas quais a vida ou a liberdade pesam na balança, enfraquecendo a própria ideia de escolha. Ela existe, mas ficar pode ser fatal. São os terríveis casos de guerras, perseguições políticas e miséria. Neles, nem sempre se chega a um destino confortável e pode-se viver uma suspensão de direitos em espaços nos quais não se é inteiramente aceito. O sujeito permanece entre não lugares.

Com essa experiência em mente, talvez possamos pensar na relação com a família de origem e em como “migramos” ao longo da vida para novas configurações familiares. Assim como a terra onde nascemos nos marca com suas cores, seus cheiros, seus sons e seus sabores, a família também nos transmite suas formas próprias.

Território e família se cruzam, pois, se dizemos que viemos de uma família brasileira periférica, de ascendência japonesa, por exemplo, subentendem-se coordenadas específicas. Para além dos estereótipos e preconceitos, existe um caldo de cultura próprio dessas referências. A elas temos que juntar o léxico daquela família particular e o que o sujeito singular fez com tudo isso.

Famílias carregam expectativas sobre a prole, cuja margem de negociação varia muito de uma para outra. Não se trata apenas de esperar que os filhos casem e tenham os seus, que estudem e se sustentem, que sejam educados e religiosos ou, ainda, que façam o contrário de tudo isso. Existem expectativas familiares inconscientes, verdadeiras leis subterrâneas, que regem o sucesso ou o fracasso familiar sem que ninguém se dê conta. Famílias carregam lutos, humilhações, culpas, medos, violências transgeracionais, criando pactos de sofrimento difíceis de elucidar.

Quando algum de seus integrantes consegue “migrar”, rompendo com a fantasia comum e com os acordos inconscientes, vê-se confrontado com os mesmos dilemas dos grandes deslocamentos (palavra cara à psicanálise). Há os que alcançam condições psíquicas mais promissoras e os que ficam entre mundos, à deriva.

Por amor, por realização, por medo, por franca ameaça à própria existência, sair das referências familiares nunca se dá sem um resto. Mesmo a saída de uma família que tem um pacto sinistro com a morte, com o fracasso, com a violência não deixa de produzir nostalgias. Por vezes, assistimos a sujeitos que encenaram uma superação, mas retornaram como que por gravidade, reproduzindo aquilo mesmo do qual pretendiam escapar.

Afinal, haja o que houver, nossa relação com o corpo e com as memórias adquiridas nesses primórdios nos constituiu como sujeitos.

Família é o território que nos engendra, mas para o qual nem sempre se pode ou deve voltar. Restarão, na radicalidade dos desterros bem-sucedidos, as “madeleines” a nos perseguir em sonho.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

[ad_2]

Fonte: Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *