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A preocupação com a saúde mental de estudantes não é nova na educação e foi intensificada pelo isolamento da pandemia. Mas para a pesquisadora britânica Sue Roffey, referência internacional no estudo da relação entre o aprendizado e o bem-estar escolar, falta preparar os educadores para manter relações positivas com os alunos e a lidar bem com comportamentos desafiadores.
“Incluir isso na formação docente no Brasil seria um excelente começo”, afirma, destacando que criar espaço para a dimensão socioemocional não depende de professores isolados, mas de uma abordagem de toda a escola.
Aos 78 anos, a psicóloga educacional é professora honorária da University College London, fellow da Sociedade Britânica de Psicologia e integra o grupo de especialistas sobre a infância da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que reúne mais de 30 países).
Depois de trabalhar como professora na Inglaterra, Roffey se mudou para a Austrália, no início dos anos 2000, onde fundou uma rede voltada ao bem-estar na educação e um projeto para promover a autoconfiança de meninas aborígenes no ensino médio.
Em 2017, retornou à Inglaterra, onde segue desenvolvendo pesquisas e militando pelo cuidado com bem-estar e a saúde mental nas escolas.
Doutora em psicologia educacional, Roffey é autora de mais de 20 livros, nos quais desenvolve suas teorias, sendo a principal delas a “Circle Solutions” (soluções em círculo), que estimula rodas de conversa entre alunos, com professores formados para potencializar essas atividades. Ela sistematizou sua metolodogia para fomentar os princípios que devem ser desenvolvidos entre crianças e jovens, chamados por ela de ASPIRE (Autonomia, Segurança, Positividade, Inclusão, Respeito e Equidade).
Seus livros são referências para a educação positiva, baseada na ideia de que o desenvolvimento acadêmico é favorecido por um ambiente em que os alunos se sintam bem, criem vínculos e busquem não apenas o sucesso individual mas contribuam para o bem-estar coletivo.
Ela esteve em São Paulo para participar de um evento promovido no sábado (28) pela escola Pueri Domus, que recebeu um prêmio internacional (status prata dentre as categorias ouro, prata e bronze) concedido pelo Centro de Excelência Carnegie para Saúde Mental nas Escolas, da Universidade Leeds Beckett, do Reino Unido.
A premiação, que tem Roffey como membro de seu conselho consultivo, é concedida a escolas com projetos que promovam a saúde mental. O encontro foi organizado em parceria com a Faculdade Sírio-Libanês.
Roffey falou à Folha de métodos para melhorar o bem-estar escolar.
As escolas foram vistas por muito tempo como locais de aquisição de conteúdos e de disciplina comportamental. Quando e por que surgiu a ideia de que é necessário se voltar ao bem-estar dos alunos?
Nos últimos 25 anos, tem havido um reconhecimento crescente, com base em pesquisas, de que crianças e jovens aprendem melhor quando têm uma percepção positiva de si mesmos, sentem-se seguros e estão inseridos em relações de apoio. Algumas pessoas focam apenas o desempenho acadêmico ou apenas o bem-estar. É uma falsa dicotomia. Os dois aspectos se influenciam mutuamente. No entanto, a preocupação com a saúde mental dos jovens foi intensificada pela pandemia.
Embora a atenção às questões socioemocionais tenha aumentado pós-pandemia, muitas escolas permanecem fortemente focadas no desempenho dos alunos em notas, provas, vestibulares etc.
Talvez precisemos começar pela pergunta “para que serve a educação?” Na minha visão, ela tem o objetivo de permitir que cada estudante se torne a melhor versão de si mesmo e de ajudar a construir o mundo em que queremos viver. Quando os educadores focam apenas o desempenho acadêmico em um ambiente competitivo, muitos jovens passam a se ver como fracassados, porque suas conquistas, talentos e pontos fortes não são reconhecidos. Precisamos encontrar melhores formas de garantir que sejam. É necessário ampliar a educação para incluir um conjunto muito mais diverso de habilidades e encontrar caminhos para que os alunos demonstrarem essa aprendizagem mais ampla.
A autonomia é fundamental. Se queremos uma democracia melhor, precisamos promover a voz dos estudantes, a escolha e o pensamento crítico. Em um mundo em que a informação está disponível a um clique, não faz sentido depender da memorização para reproduzir conteúdos. O que realmente importa é a aplicação do conhecimento.
Como a sra. avalia o risco de que a valorização dos aspectos socioemocionais não passe de retórica ou marketing?
O bem-estar e as questões socioemocionais precisam envolver a escola como um todo: todos os alunos, todos os professores, todos os dias.
Veja o exemplo das escolas do nosso projeto “Love of Learning” [Amor pela Aprendizagem, que mapeou escolas com boas práticas nessa área]. Essas escolas começaram com a crença no desenvolvimento integral da criança, construindo sistemas baseados em relações saudáveis.
Meu trabalho incorpora os princípios ASPIRE para os alunos, que são: Autonomia, Segurança, Positividade, Inclusão, Respeito e Equidade. Quando esses elementos estão presentes em toda a escola, todos têm mais chances de prosperar e aprender, mesmo em contextos vulneráveis.
Diante do aumento dos desafios socioemocionais nas escolas no pós-pandemia e com o uso excessivo de telas, há educadores e gestores que reagem dizendo que “escola não é clínica” e “não somos profissionais de saúde mental”. Como a sra. vê essa resistência?
De fato, professores não precisam ser terapeutas. Mas precisam entender o impacto de suas palavras nos alunos. Não se trata de fazer mais coisas, mas de fazer algumas coisas de forma diferente, e isso se baseia tanto no bom senso quanto nos avanços da neuropsicologia. Todos os professores em formação precisam aprender a construir e a manter relações positivas com os alunos e a lidar bem com comportamentos desafiadores. Isso reduz problemas de comportamento em sala e melhora o engajamento.
Muitas escolas se sentem perdidas diante da crescente complexidade das questões emocionais que afetam os alunos. Como enfrentar isso?
É preciso garantir que a escola não agrave fatores negativos que possam ter impacto na saúde mental. Isso inclui reduzir a competição acadêmica, aumentar o prazer na aprendizagem (por exemplo, com projetos em grupo) e prevenir o bullying. É importante criar espaços para discutir questões mais amplas que impactam ansiedade e depressão, como mudanças climáticas, redes sociais e misoginia, com foco em discutir soluções, para que os estudantes vejam que não estão sozinhos e compartilhem ideias para construir a resiliência. E tudo isso não depende de professores isolados, mas de uma abordagem de toda a escola.
A sra. defende o método Circle Solutions [soluções em círculo]. Colocar os alunos em roda nas aulas já é comum, mas a sra. deixa claro que é preciso que os educadores sejam formados para essas práticas, para amplificar seus ganhos. Como fazer isso em países como o Brasil, com um sistema de ensino complexo e desigual?
Circle Solutions é um modelo de aprendizagem socioemocional seguro, focado em soluções e baseado nos pontos fortes dos participantes. Ele promove discussão, reflexão e ação em relação a temas importantes para os jovens. Não exige recursos extras, apenas a crença de que isso importa e habilidades de facilitação dessas práticas. É um sistema em cascata. Treinei muitas pessoas para fazer isso em suas aulas, mas também formei formadores que podem não apenas capacitar a equipe, mas também apoiar e monitorar os resultados. Isso foi implementado em países como Dinamarca, China, Austrália e no Reino Unido. E o feedback é que funciona, especialmente na promoção de um senso de pertencimento, algo tão essencial para a saúde mental e o bem-estar. Incluir isso na formação docente no Brasil seria um excelente começo.
Como a sra. vê o movimento de proibição de celulares nas escolas e do veto a redes sociais para menores de 16 anos?
Sou a favor da proibição dos celulares. Eles distraem do que está acontecendo no mundo real, dificultam interações presenciais e expõem jovens a conteúdos negativos, com algoritmos que limitam sua visão de mundo. Também por isso defendo o veto das redes sociais para menores de 16.
E a educação midiática é essencial. As mídias influenciam fortemente como as pessoas veem a si mesmas, aos outros e ao mundo –e as empresas exploram isso de acordo com seus interesses.
Os jovens precisam aprender a diferenciar fato de opinião e compreender evidências científicas. Isso deve começar cedo, e os alunos devem ser ativos na produção de conteúdos e debates sobre essas temáticas.
Raio-x | Sue Roffey, 78
Natural de Southend-on-sea, na Inglaterra, formou-se professora e atuou em escolas. Especializou-se em psicologia educacional, estudando a relação entre o aprendizado e a saúde mental dos estudantes. É professora honorária associada da University College London, fellow da Sociedade Britânica de Psicologia e integra o grupo de especialistas sobre a infância da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Faz parte do conselho consultivo do Centro de Excelência Carnegie para Saúde Mental nas Escolas, da Universidade Leeds Beckett, do Reino Unido.
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Fonte: Folha
