De onde vem a palavra ‘ianque’? – 28/01/2026 – Sérgio Rodrigues

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Se o futuro da humanidade —que se anuncia de curta duração— parece dominado pela IA, o passado é longo e pode ser visitado em pessoa por aqueles da nossa espécie que, sabe-se lá como, conservarem a manha e o fôlego para mergulhar num mar de livros.

Há ali, entre outras riquezas que só serão realmente nossas se as encontrarmos por conta própria, histórias de palavras que ajudam a lançar luz sobre o presente escuro. Ianque, por exemplo.

Forma aportuguesada do inglês “yankee”, registrada pela primeira vez em nossa língua ainda em fins do século 18, trata-se de um termo usado em muitas partes do mundo como designação genérica do nativo dos EUA.

Como se sabe, quase sempre tem nesse caso sentido negativo: “Yankees, go home!” (Ianques, vão para casa!) é um clássico bordão anti-imperialista. A política externa truculenta de Donald Trump tem se empenhado em garantir que permaneça assim até o fim dos tempos.

Trata-se de uma palavra de origem tão misteriosa, cercada de tantas lendas e teses carentes de fundamento, que sua verdade etimológica talvez esteja perdida para sempre. O que só a torna mais saborosa.

Quando falo de mistério, me refiro à fonte, ao nascedouro. Uma vez nascida, a trajetória de ianque é clara. Os dicionários nos informam que significa habitante da região nordeste dos EUA, mais especificamente da Nova Inglaterra. Na Guerra Civil que rachou o país (1861-1865), nomeava os vitoriosos nortistas como um todo.

Recuando mais no tempo, descobrimos que “ianque” tinha iniciado sua trajetória como um termo pejorativo que os holandeses de Nova York colavam nos habitantes do estado vizinho de Connecticut, zombando de sua caipirice.

Os registros históricos informam também que os britânicos não demoraram a adotar a palavra como sinônimo de norte-americano em geral —e ainda que, em desafio, o povo da terra passou a abraçá-la com orgulho.

(Esse processo é análogo ao que transformou em gentílico oficial o termo “brasileiro” —que, designando um coletor de pau-brasil, era derrogatório quando expandido para todo o pessoal da terra.)

O barata-voa começa quando se busca a origem. Embora uma tese sóbria derive ianque simplesmente do holandês “Janke” (Joãozinho), o Merriam-Webster etimológico enumera uma série de teses descabeladas e considera o caso aberto.

Seria o apelido de um fazendeiro de Massachusetts, Yankee Hastings, assim chamado porque vivia usando a palavra como interjeição de contentamento? Ou homenagem ao pirata holandês Yankey, quer dizer, Jan Kees (João Queijo?).

Quem não gosta de personalizar tanto a etimologia talvez prefira recorrer à palavra indígena (da língua cherokee) “eankke”, isto é, covarde. O problema é que tal vocábulo nunca existiu em cherokee.

Que tal então o modo desajeitado como os indígenas tentavam pronunciar “english”? Podemos mencionar ainda as gírias britânicas “yankie” (mulher valente) ou “jank” (merda).

Quem sabe a gente chegue ao persa “janghe” (cavalo veloz) –mas, esperem um pouco, o que o persa veio fazer nessa história? “Janghe, go home!”


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Fonte: Folha

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