RUF 2025: É duro entrar no clube de melhores universidades – 09/11/2025 – Notícias – Ranking de Universidades

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Na década de 1960, o sociólogo da ciência norte-americano Robert Merton (1910-2003) emprestou da Bíblia o nome que deu ao acúmulo de vantagens que se observa em alguns sistemas universitários.

Ele chamou de “Efeito Mateus na Ciência” o fenômeno que faz com que um grupo de pesquisadores e de instituições produzam mais porque recebem mais recursos —e assim sucessivamente. Isso também é observável por meio do RUF (Ranking Universitário Folha).

Uma análise da alusão bíblica de Merton (“a quem tem mais será dado e terá em abundância”) pode ser feita no primeiro pelotão do ranking. É o grupo das 25 melhores universidades do país.

Desde a primeira edição do RUF, publicada em 2012, esse conjunto de universidades líderes tem se mantido bem homogêneo —e está cada vez mais concentrado no eixo Sul-Sudeste.

No RUF deste ano, que avaliou as 204 universidades brasileiras, todas as instituições do topo têm cerca de 50 anos (ou mais), estão localizadas em grandes centros e têm natureza administrativa pública ou confessional sem fins lucrativos.

Isso tem se mantido nas últimas edições, com uma mudança: não há nenhuma universidade do Norte do país encabeçando a listagem.

A UFPA (Universidade Federal do Pará), 24ª colocada no país no RUF em 2012 (líder na região Norte), foi classificada em 30º lugar nesta listagem de 2025. Nas edições intermediárias do RUF, a UFPA variou entre o 26º lugar no país (em 2013) ao 31º lugar (em 2024). Não voltou mais ao primeiro quartil do ranking.

A concentração de universidades semelhantes no topo da listagem ficou ainda mais latente.

Do Nordeste, há quatro universidades no topo do RUF deste ano. Com exceção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que tem se destacado no primeiro pelotão do RUF —passou de 21º lugar em 2012 para 17º lugar neste ano—, as demais têm perdido fôlego.

As federais de Pernambuco (UFPE, 12º lugar neste ano), da Bahia (UFBA, 14º lugar) e do Ceará (UFC, 19º lugar) caíram de uma a duas posições no ranking atual em relação à edição de 2012.

Na contramão, subiram no ranking, no mesmo período, universidades sudestinas como a UFSCar (que passou de 17º lugar em 2012 para 10º neste ano) e a Unifesp, que foi de 14º lugar em 2012 para 11º neste ano.

Assim como há um grupo bem específico de instituições no topo do RUF, também é possível notar um padrão institucional na rabeira da listagem.

No fim da fila há sobretudo universidades pequenas, de baixa ou média concorrência, com menos de 50 anos e distantes dos grandes centros. Isso acontece a partir da posição 176 do ranking até o final da listagem, totalizando 29 instituições.

É o caso da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), 186º lugar no RUF, que fica a cerca de 4 horas de carro (230 km) da capital Cuiabá. Ou da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (Uemasul), 196º lugar no RUF, a 11 horas de carro (635 km) da capital São Luís.

Ambas têm menos de dez anos de criação. Surgiram, portanto, depois da primeira edição do RUF, que é de 2012, de desmembramentos de outras universidades, respectivamente a federal do Mato Grosso (UFMT) e estadual do Maranhão (Uema).

São instituições que relatam desafios para atrair corpo docente, para construir novos espaços físicos e para fazer pesquisa científica rotineiramente. Um reagente importado usado em bancadas, por exemplo, pode levar meses para chegar a um laboratório de uma universidade longe de aeroportos das capitais (“ao que não tem, até o que tem lhe será tirado”, diria Mateus).

As universidades que têm dificuldades para caminhar no cenário da educação superior do país —e no ranking da Folha—, no entanto, não estão fadadas às rabeiras. Isso porque essa estagnação pode ser revertida com políticas públicas. E um dos casos mais emblemáticos nesse sentido é o das universidades chinesas.

Na mesma época em que o RUF foi lançado no Brasil, outro ranking, o britânico THE (Times Higher Education), que avalia instituições de todo o mundo, era liderado por universidades europeias e norte-americanas.

Não havia nenhuma universidade da China no topo daquela listagem internacional de 2012-2013. As melhores universidades chinesas, de Pequim e Tsinghua, estavam, respectivamente, em 46º lugar e 52º lugar do globo, de acordo com o THE.

Só que o governo chinês direcionava muitos esforços a um conjunto de universidades daquele país justamente para torná-las competitivas mundialmente com instituições norte-americanas e europeias, fundadas alguns séculos antes. Entre as medidas estavam muitos recursos para pesquisa científica e novos contratos de professores de excelência.

Os resultados? Tsinghua ganhou 30 casas desde o ranking de 2012-2013 e se tornou a 12ª melhor universidade do mundo no último THE (2025-2026). A Universidade de Pequim figura na sequência, em 13º lugar no mundo. Há, ainda, três universidades chinesas no segundo pelotão deste ranking: Fudan (36º lugar no mundo), Zhejiang (39º) e Xangai (40º).

A China chegou com folga ao grupo de universidades do topo no mundo em pouco mais de dez anos. A desbancada foi tão grande que o país passou a liderar a produção científica mundial em 2020, ultrapassando os EUA em quantidade de artigos científicos produzidos.

Só que para desenhar uma política pública como a da China, é preciso, primeiro, saber o que se planeja para a educação superior do país. E, no caso brasileiro, isso não está muito claro.

A ampliação de vagas na formação superior, sobretudo pública e em regiões remotas do Brasil, é urgente, mas precisa ser acompanhada de estratégias que permitam a integração real das novas instituições no sistema da educação superior. Se isso não for feito, o retrato tirado em listagens como o RUF seguirá o mesmo —ou será ainda mais excludente no futuro.

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Fonte: Folha

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