M. Resnick: IA tem resposta; educação precisa de pergunta – 04/11/2025 – Educação

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Na porta de uma das casas, em uma vila tranquila de Cambridge, no estado de Massachusetts (EUA), um tijolo faltava na soleira. Em vez de cimento, peças de Lego preenchem o vazio —um gesto simples e revelador de quem acredita que o aprendizado começa com a imaginação.

Foi ali que o pesquisador Mitchel Resnick recebeu a reportagem, sentado na cozinha entre uma tigela de morangos frescos e pilhas de brinquedos espalhados pela sala ao lado. O homem que ajudou a criar o Scratch —plataforma de programação usada por mais de 100 milhões de crianças no mundo inteiro— e que dirige o grupo Lifelong Kindergarten [ou “jardim de infância para a vida toda”] no MIT Media Lab fala como vive: cercado de objetos simples que convidam à invenção. Para ele, brincar é uma forma séria de pensar.

Resnick está no Brasil para celebrar os dez anos da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa (RBAC), parceria entre o Instituto de Tecnologia de Massachusetts e educadores do país, retomando uma convicção que orienta sua trajetória: a tecnologia, diz ele, “só faz sentido se ampliar o que há de mais humano nos alunos”.

Em um mundo em que algoritmos parecem saber tudo, Resnick insiste: o futuro depende dos professores. O papel da inteligência artificial, para ele, é criar condições para estimular mais projeto, mais curiosidade e mais colaboração, não para estreitar o repertório das crianças a respostas “certas”.

É essa estrutura —a dos blocos que se encaixam para formar algo surpreendente— que ele pretende expandir no Brasil: soluções simples e engenhosas, nascidas da cultura local, capazes de transformar a experiência de aprender.

A inteligência artificial generativa tem deixado muitos educadores inquietos. Se as máquinas fazem quase tudo melhor que nós, o que ainda vale a pena ensinar —e aprender?

As pessoas têm razão em se preocupar com a educação. O mundo muda rápido demais. Tudo está se transformando ao mesmo tempo —tecnologia, política, cultura. E a escola continua quase igual. Foi criada num tempo em que bastava aprender um conjunto fixo de conhecimentos e carregar isso pela vida toda. Decorar fatos, repetir técnicas. Hoje não dá mais. O que os jovens enfrentam é um fluxo constante de situações novas e imprevisíveis. O importante não é ter todas as respostas, e sim saber se adaptar, criar, experimentar. Acima de tudo, eles precisam desenvolver o pensamento criativo —a capacidade de imaginar e testar novas formas de agir.

Há uma corrida global para formar jovens nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Muitos acreditam que o sucesso no futuro depende de dominar linguagens de programação e ferramentas digitais. Esse será mesmo o grande fator de diferenciação?

A fluência tecnológica é importante, claro. Mas precisamos ter cuidado: as tecnologias mudam rápido demais. Não adianta aprender a usar um aplicativo ou uma plataforma específica. O mais importante é sentir-se à vontade para aprender sempre, com o que vier de novo. Nosso objetivo deve ser ajudar as crianças a se tornarem aprendizes curiosos, criativos, colaborativos e cuidadosos. Essas são as qualidades mais necessárias hoje —e também as mais humanas. À medida que as máquinas passam a automatizar tantas tarefas, precisamos focar no que realmente nos diferencia: criatividade, curiosidade, colaboração e empatia. A tecnologia pode —e deve— ser usada para nutrir essas qualidades.

O sr. tem dito que prefere falar em “sociedade centrada no humano” em vez de “inteligência artificial centrada no humano”. Qual é, afinal, a diferença?

A expressão “IA centrada no humano” não é ruim, mas é limitada. Ela sugere que basta criar interfaces mais amigáveis entre pessoas e máquinas. O desafio é bem maior: precisamos repensar todo o sistema educacional e a própria sociedade. Vejo o risco de a IA ser usada apenas para tornar mais eficientes as mesmas práticas antigas. Podemos usar inteligência artificial para ensinar frações mais rápido —e isso não é necessariamente ruim—, mas é insuficiente. O verdadeiro desafio é criar um sistema que valorize as experiências, as necessidades e os interesses humanos. Não quero mudar apenas as ferramentas; quero mudar os objetivos da educação. O que precisamos é de uma sociedade que coloque o humano no centro, não apenas a tecnologia.

Todos querem métricas: escolas, governos, empresas. É bonito falar em aprendizado “humano”, mas como garantir qualidade e rigor sem planilhas?

É natural querer medir o que funciona —mas números raramente capturam o que realmente importa. Quando o MIT avaliou minha promoção, por exemplo, ninguém contou artigos ou citações. Perguntaram aos meus pares: “Ele está causando um bom impacto no mundo?” As pessoas escreveram cartas [de recomendação] explicando seus motivos. Se uma instituição científica de ponta consegue olhar além das métricas, as escolas e governos também podem. Precisamos combinar dados com observação e narrativa — medir não só o desempenho, mas a experiência de aprender.



Não adianta aprender a usar um aplicativo ou uma plataforma específica. O mais importante é sentir-se à vontade para aprender sempre, com o que vier de novo

O sr. costuma dizer que a escola precisa se abrir para o mundo real. O que falta para aproximar o aprendizado da vida e da comunidade fora da sala de aula?

A mentalidade tradicional ainda vê a educação como transmissão eficiente de instruções. O que importa, na verdade, é criar ambientes em que os alunos possam explorar, experimentar e se expressar. Mesmo onde há educadores que pensam assim, as próprias estruturas da escola tornam a mudança difícil: aulas de 50 minutos, currículos engessados, fronteiras rígidas entre disciplinas e entre a escola e a comunidade. Tudo isso impede projetos interdisciplinares e conectados à vida real. Um dos papéis da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa é mostrar que existem escolas fazendo diferente —e que dá certo. Esses exemplos inspiram outros e ajudam a criar uma rede de educadores que não se sentem sozinhos. É isso que transforma mentalidades e, aos poucos, também as estruturas.

Em escolas e empresas, inovar costuma ser difícil: há hierarquias, regras rígidas e pouca tolerância ao erro. Como criar espaço para experimentar sem comprometer resultados?

Quando uma empresa falha, perde dinheiro. Quando a educação falha, quem perde são as crianças —e isso é muito mais grave. Vejo dois tipos de inovação importantes: a revolucionária, quando se cria algo totalmente novo —programas que testam ideias radicais em pequena escala—, e a evolucionária, com mudanças graduais dentro do sistema existente. Às vezes, basta um passo: uma escola que reserva uma “semana de projetos” pode, anos depois, transformar isso em um mês inteiro. É assim que as mudanças se infiltram, sem destruir o que já existe. O fracasso faz parte do processo. É assim que se inova —em qualquer campo.

Bill Gates afirmou recentemente que a inteligência artificial poderá substituir professores em poucos anos. Escolas como a Alpha School, no Texas, já reduzem a presença de docentes tradicionais e usam tutores de IA para ensinar as disciplinas principais. O sr. acredita nesse caminho?

Não. É perigoso acreditar que não precisaremos mais de professores. Sempre que surge uma nova tecnologia, a pergunta deveria ser: como podemos usá-la para ajudar as crianças a se tornarem mais criativas, curiosas e colaborativas? Fazer experimentos é bom —mas, repito, se o objetivo for apenas ensinar frações mais rápido, estamos indo na direção errada. Pode parecer sucesso se as notas subirem, mas isso é ilusão. Educação não é eficiência; é descoberta. A nova geração de IA pode apoiar projetos criativos e aprendizagens baseadas em interesse, o que antes era difícil. Mas, na maioria das escolas, ela ainda serve para reforçar velhas práticas. Precisamos de bons exemplos que mostrem o contrário — que usem tecnologia para expandir a imaginação, não para estreitá-la.

O sr. acredita que a inteligência artificial tem sido usada de maneira equivocada nas escolas?

Em muitos casos, sim. A maior parte das aplicações de IA tenta apenas tornar mais eficiente o ensino de respostas prontas. Mas o mundo real precisa do oposto: pessoas que saibam fazer perguntas e criar caminhos. Se treinamos crianças só para responder, preparamos para um mundo que já passou. O essencial é definir primeiro os objetivos humanos —formar jovens criativos, curiosos e empáticos— e só depois escolher as ferramentas. Nem tudo precisa ser tecnológico; aprender também é explorar o mundo com as mãos e com a mente.

No livro “Jardim de Infância para a Vida Toda” (Penso Editora), o sr. defende que a educação deveria funcionar um espaço de experimentação, curiosidade e imaginação. Ele foi publicado em 2018, antes da explosão da IA. O que mudaria se o escrevesse hoje?

O princípio continua o mesmo: usar a tecnologia para fortalecer a criatividade, a curiosidade e a colaboração. Na época, o Scratch mostrava como a internet podia ser um espaço de criação, não só de consumo. Agora, o desafio é maior. A IA pode ampliar essas possibilidades —ou destruí-las, se for usada apenas para repetir padrões. Esses valores —criar, explorar, cuidar— nunca foram tão urgentes. São essenciais não só para o trabalho, mas para a própria democracia. A criatividade também é uma força moral: ela exige liberdade de pensamento. Em muitos países, há pressões para limitar o acesso a ideias e conteúdos. Os educadores precisam decidir se vão ceder ou defender o direito dos alunos de pensar por conta própria. Formar jovens criativos e críticos é, hoje, um ato de coragem.

Vivemos cercados por informações, alertas e novidades tecnológicas todos os dias. Muitos educadores e profissionais dizem se sentir sobrecarregados. Como o sr. consegue manter o foco e continuar aprendendo nesse cenário?

Tento ser muito seletivo. Escolho poucas fontes confiáveis —podcasts, blogs, newsletters— e confio mais nas pessoas do que nos algoritmos. Com o tempo, a gente desenvolve uma bússola: aprende a reconhecer o que faz sentido e o que não faz. E, acima de tudo, continuo aprendendo fazendo. Acredito que crianças aprendem melhor fazendo projetos, e nós também. Criar é a forma mais profunda de compreender.

Qual é o maior desafio da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa daqui para frente?

Manter viva a energia dos primeiros anos e aprofundar o impacto. A RBAC mostrou que é possível unir educadores em torno de uma visão comum, mas o desafio agora é transformar mais escolas e comunidades. Isso exige continuidade, mesmo com as mudanças políticas e institucionais. O futuro da rede depende de manter o espírito de colaboração e de aprendizado conjunto que a fez nascer.

Costuma-se dizer que os brasileiros são criativos justamente porque precisam improvisar diante da falta de recursos. O sr. concorda com essa ideia?

O Brasil tem uma energia criativa muito especial. Há algo na cultura que encoraja as pessoas a encontrar caminhos mesmo quando os recursos são limitados. Eu já vi professores e alunos fazendo coisas incríveis com materiais simples, porque realmente querem que a aprendizagem aconteça. Isso é inspirador. Mas também é importante reconhecer que a falta de recursos não é algo bom —ela cria barreiras. Não quero romantizar isso. O ideal seria combinar o que o Brasil tem de melhor —essa imaginação e essa disposição para experimentar— com mais apoio e infraestrutura. Acho que é aí que pode acontecer algo realmente transformador.


Mitchel Resnick, 69

Formado em física pela Universidade de Princeton e mestre e doutor em ciência da computação pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Como pesquisador do MIT Media Lab, coordena o Lifelong Kindergarten, que busca desenvolver novas tecnologias e experiências de aprendizagem criativas. A iniciativa gerou o software de programação Scratch e colaborou com a empresa Lego na elaboração de produtos educativos.

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Fonte: Folha

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