Professora tenta fazer alunos perderem medo da matemática – 21/10/2025 – Educação

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Durante anos, Patrícia Barreto, 39, ensinou matemática do mesmo jeito que havia aprendido: com fórmulas, regras e procedimentos. “Eu era a réplica dos meus professores, apesar de sempre ter sonhado em ser diferente”, conta ela, que dá aulas em uma escola particular de Salvador e em outra da rede pública de Candeias, na região metropolitana.

A mudança veio na pandemia: ao pesquisar formas de reinventar suas aulas para manter os alunos engajados através de uma tela, Patrícia descobriu as Mentalidades Matemáticas, uma abordagem que valoriza a investigação, a construção coletiva do conhecimento e a criatividade dentro da disciplina.

A metodologia —desenvolvida pela pesquisadora Jo Boaler, da Universidade de Stanford, nos EUA, e aplicada no Brasil pelo Instituto Sidarta— busca desconstruir a ideia de que matemática é só para gênios.

Ao mergulhar no assunto, Patrícia mudou sua relação com o próprio conhecimento que leciona. “O primeiro passo foi me desconstruir. Porque eu me tornei professora, mas não sabia tudo de matemática. Tinha medo de ser questionada e não ter a resposta”, lembra.

Enquanto aprendia, ela ia criando um repertório para aplicar em sala de aula. “Hoje eu busco dar sentido ao que eles estão estudando, trabalhar a construção das fórmulas. Foi uma virada de chave.”

O resultado é uma sala viva e barulhenta —que a Folha pôde acompanhar, quando ela ensinava o teorema de Pitágoras usando uma parede de azulejos como malha quadriculada para uma turma de 9º ano.

“Se alguém chegasse de fora, ia dizer que estava uma zona”, diz, rindo. “Mas o quanto de conhecimento estava acontecendo! Eu saio do centro das atenções: dou as instruções e o suporte, enquanto eles vão construindo o conceito.”

O processo envolve mudar mentalidades, já que os estudantes internalizaram que só quem tem aptidão natural para números consegue aprender matemática. A missão fica ainda mais complexa para os alunos de EJA (educação de jovens e adultos), que têm a autoestima abalada por não terem aprendido no tempo esperado —muitos deles foram reprovados justamente por causa da matemática.

“Entendi que eu posso ser a melhor professora do mundo, dar uma aula dinâmica, criar atividades. Mas se a mentalidade deles ainda for de que não conseguem aprender, eu não vou atingir esses alunos”, diz Patrícia. “Hoje, eles não veem mais a matemática como vilã.”

O resultado pode ser visto também pela redução das reprovações: se antes 40% da turma ficavam de recuperação, hoje essa proporção não passa de 15%.

A experiência tem sido tão transformadora que Patrícia tatuou um cérebro florescendo no braço —símbolo do seu próprio crescimento e da mudança de “uma professora de matemática que tinha medo da própria matemática” para alguém que está em constante aprendizado.

‘Educação não é sacerdócio’

A busca por melhorar de vida por meio da educação marcou a vida de Patrícia desde bebê: filha de uma empregada doméstica e de um porteiro, ela foi entregue à tutela de outra família. “Meus pais acreditavam que, se eu fosse criada por eles, poderia não ter oportunidade de estudar, assim como eles não tiveram”, conta.

Ela estudou em escola pública, ganhou bolsa integral pelo Prouni para cursar matemática e começou a dar aulas antes de se formar. “Eu tive muita dificuldade na universidade, muita sobrecarga de uma matemática que eu nunca tinha visto. Mas ainda assim, eu não senti vontade de desistir.”

Mas ela não romantiza sua trajetória nem as dificuldades atuais —que incluem não conseguir almoçar, pois não dá tempo no trajeto entre a escola particular e a pública nas quais leciona. “Eu luto pelos meus alunos, mas também luto pelos meus direitos. Meu maior sonho é nossa profissão ser valorizada”, diz.

Ela também não gosta do discurso de “dar aula por amor”. “Amo o que faço, mas não vivo de amor e não estou na escola como um sacerdote. Ser professora de matemática é minha profissão. Busco me aperfeiçoar e me sinto ensinando algo que vai impactar a vida dos meninos e a sociedade”, afirma.

Desafio brasileiro

Os indicadores sobre aprendizado de matemática no Brasil mostram um cenário crítico: o nível de proficiência dos alunos é inferior ao de outras disciplinas em todas as etapas —e essa diferença cresce ao longo da vida escolar, a ponto de só 5% terem conhecimento avançado no 3º ano do ensino médio.

O déficit é maior entre meninas, alunos negros e pobres —mas não atinge apenas as camadas socioeconômicas baixas. “Os desafios são agravados na escola pública, mas os estudantes mais pobres do Vietnã aprendem mais matemática do que os mais ricos do Brasil”, aponta Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação.

Ele afirma que falta mais atenção ao tema por parte do poder público —que, historicamente, vem se concentrando mais na alfabetização—, mas cita o programa federal Toda Matemática, lançada neste ano, como um avanço. “O Brasil nunca tinha tido uma política específica para matemática e ela foi bem desenhada. O desafio é colocá-la de pé.”

Gontijo também aponta a necessidade de investir em recomposição de aprendizagem. “O conhecimento da matemática é cumulativo. Quem não domina operações básicas não vai entender uma equação de segundo grau. Precisamos planejar melhor como lidar com um aluno do nono ano que não sabe dividir.”

Outro gargalo está na formação dos docentes, especialmente dos professores generalistas dos anos iniciais. “Ensina-se pouca matemática nos cursos de pedagogia, e é natural que os professores evitem trabalhar um conteúdo do qual têm pouco domínio”, diz Gontijo.

Segundo Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, o medo da matemática tem até base neurológica. “Quando a gente se depara com uma equação matemática, é acionada a mesma parte do cérebro que é ativada quando vemos um animal peçonhento, como uma cobra ou uma aranha”, explica.

Para ela, é preciso reconstruir a relação dos alunos e dos próprios professores com a disciplina, mostrando que todos têm potencial. “A matemática está presente no nosso dia, e os estudos sobre plasticidade cerebral demonstram que qualquer um pode aprender.”

Ela diz que é “emocionante” ver professores e alunos transformando sua relação com a disciplina por meio das Mentalidades Matemáticas. “A gente brinca que a matemática é o pretexto. É fundamental a gente saber mais matemática, mas o mais importante é ver que com ela você pode ir muito mais longe.”


Quem Ensina o Brasil: Patrícia Barreto de Souza, 39

  • Professora há: 17 anos

  • Para quantos alunos dá aula: 100 estudantes na escola pública e 180 na escola particular

  • Formação: Licenciada em Matemática, com especialização em metodologia do ensino da matemática

10% dos estudantes brasileiros têm aprendizado adequado em matemática, segundo o Pisa 2022

1%, apenas, atingiu alto desempenho na disciplina, segundo a avaliação internacional


Este texto faz parte da série Quem Ensina o Brasil, uma parceria da Folha com a organização Todos pela Educação.

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Fonte: Folha

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