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Tive o enorme prazer de assistir à última montagem da ópera “Porgy and Bess”, de Ira e George Gershwin, libreto de DuBose Heyward, no Theatro Municipal de São Paulo.
Sempre que se tem acesso a lugares sofisticados, como esse no Brasil, a experiência é que se vive na Dinamarca: a plateia é quase inteiramente branca. Cabe aos artistas, garçons, manobristas, faxineiros e demais trabalhadores que fazem o circo funcionar representarem a verdadeira composição do povo brasileiro.
Não estava esperando outra coisa quando fui assistir à peça sabidamente polêmica. Escrita por homens brancos e trazendo para o palco, pela primeira vez, um elenco de cantores e dançarinos negros, a obra gerou discussões sobre apropriação cultural e estigmatização de afrodescendentes.
Também não escapa ao radar a redenção da mulher pecadora pelo homem bom. Ainda assim, a beleza inconteste de suas músicas conquistou o coração do público. “Summertime”, “It Ain’t Necessarily So”, “I Got Plenty o’Nuttin’”, “Bess, You Is My Woman Now” são hits desde então, provando que a ópera ganhou corações e mentes ao longo dos seus 90 anos de estreia, comemorados neste 30 de setembro.
Mas eis que tive a grata surpresa de me deparar com uma plateia multirracial que não escondia a alegria de se reconhecer mutuamente. A encenação prima pela escolha de corpos diversos num cenário que remete às comunidades periféricas brasileiras e suas danças.
A cereja do bolo é a escolha por Grace Passô na direção. Numa pesquisa rápida, encontrei apenas três diretores negros à frente de montagens da obra. A primeira foi uma mulher, Hope Clarke, em 1995, seguida de Tazewell Thompson, em 2000, e Walter Dallas, em 2007, fato que faz da brasileira a segunda mulher negra a conduzir uma montagem em quase cem anos.
No intervalo, se podia ouvir a performance da DJ Bia Sankofa encher de ritmos populares as escadarias do teatro. O contraste entre a potência sonora da tecnologia e a orquestra, em um momento que geralmente é usado para o descanso dos ouvidos, torna a intervenção uma opção questionável. Ainda assim, dar voz a quem sempre foi excluído do rolê das óperas, dos teatros, dos restaurantes, dos shoppings é admirável. É uma escolha política e essencial. Afinal, qual o sentido de um espetáculo de qualidade que não provoque reflexão? A quem serve a excelência da arte quando ela está a serviço da segregação?
Essa pergunta tem resposta, claro. Serve para manter o apartheid da cultura, da política, dos territórios, enfim, todas as mazelas das quais nos queixamos fingindo não saber como suas bases são criadas e mantidas.
A montagem de “Porgy and Bess” se mostra emblemática da situação assustadora pela qual passa o mais importante teatro do nosso município sob os desmandos de uma prefeitura pífia e racista. Apoiar a atual administração do Theatro Municipal, que deixou a casa em ordem depois de anos —jurídica, financeira e artisticamente—, é defender a cidade inclusiva e contemporânea que queremos.
Recordamos há pouco como a rua —e a urna— faz do cidadão o ator político por excelência. Protestar contra a quebra de contrato com a atual gestão e contra a precarização do Theatro Municipal pela prefeitura é parte disso.
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Fonte: Folha
