Livros Fuvest 2026: saiba tudo sobre ‘As Meninas’ – 18/08/2025 – Educação

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A história de três jovens que moram em um pensionato de freiras em São Paulo durante a ditadura militar é o ponto de partida de “As Meninas”, famoso romance de Lygia Fagundes Telles que foi incluído na lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2026 da Fuvest.

A partir de diálogos, memórias e fluxos de consciência, o livro mergulha na intimidade das personagens sem deixar de retratar o contexto social e político.

“Acertou no canto do espelho o pequeno flagrante que Irmã Clotilde tirara diante do portão: ela no meio de Ana Clara e Lia, as três rindo um riso ardido de sol. ‘Não envesga, Ana Clara! E não faça careta, Lorena, você está fazendo careta!’ A pirâmide.” — trecho do livro ‘As Meninas’

A seguir, saiba mais sobre a obra.

QUEM É A AUTORA

Uma das mais importantes e premiadas escritoras brasileiras, Lygia Fagundes Telles (1923-2022) nasceu em São Paulo, filha de um promotor público e de uma pianista.

Formou-se em direito na USP (Universidade de São Paulo), sendo uma das sete mulheres em uma turma de 197 homens, e cursou educação física na mesma universidade.

Sua trajetória pessoal foi marcada por quebras de barreiras, como a separação do primeiro marido, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., com quem teve um filho, em um período em que o divórcio não era permitido no Brasil. Mais tarde, a escritora casou-se com o crítico de cinema e ensaísta Paulo Emílio Salles Gomes.

Autora de romances e contos, Lygia transitou pelos dois gêneros com maestria. Foi a terceira mulher a integrar a ABL (Academia Brasileira de Letras) —em 1987— e recebeu, durante quase oito décadas de carreira, os principais prêmios literários da língua portuguesa, entre eles o Camões e quatro Jabutis.

Traduzida para vários idiomas, alcançou o sucesso no exterior com os contos de “Antes do Baile Verde”, vencedor do Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França.

“As Meninas”, de 1973, é a primeira grande obra experimental da escritora, segundo Nilton Resende, professor de literatura da Universidade Estadual de Alagoas e organizador de uma edição crítica dos 50 anos do livro (ed. Eduneal, 2023). “‘Foi a grande ruptura com a Lygia contista. Foi quando ela deu uma mostra do que queria para o romance —que, para ela, era o gênero da liberdade, da experimentação. O conto dela seguia regras, os romances, não”, afirma.

O QUE É IMPORTANTE SABER SOBRE O LIVRO

Sinopse

A narrativa se concentra em apenas dois dias na vida de três universitárias: Lorena, herdeira rica e intelectualizada; Lia, militante política engajada; e Ana Clara, jovem de origem pobre envolvida em conflitos relacionados a drogas e relações amorosas problemáticas.

Literatura intimista

A obra é um exemplo de literatura intimista, que mergulha na experiência interior dos personagens, destaca Paulo Oliveira, professor de literatura do curso Anglo. “Poucos eventos externos ocorrem, mas suas consequências desencadeiam complexos processos psicológicos. A narrativa aprofunda-se nas emoções e nos dramas afetivos do presente e do passado das personagens”, afirma.

Polifonia narrativa

Segundo Oliveira, outro elemento marcante no livro é a flutuação do foco narrativo: um narrador em terceira pessoa se alterna com os relatos em primeira pessoa, a partir da perspectiva de cada uma das personagens.

Para Nilton Resende, mais do que apenas a alternância de vozes, chama a atenção a mudança na linguagem de uma narradora para a outra. “Cada personagem tem uma linguagem própria, uma sintaxe própria, um léxico próprio. Depois de alguns dias lendo, se abrirmos o livro numa página qualquer, conseguimos saber quem está narrando”, explica.

A ditadura como pano de fundo

A ditadura militar é o pano de fundo para o livro e aparece nas conversas, na descrição de uma cena de tortura e na personagem Lia, que é militante política e tem um namorado guerrilheiro que foi preso. Mas “As Meninas” não é uma obra sobre a ditadura, aponta Nilton Resende. “É um livro sobre três jovens vivendo naquele período sombrio. A ditadura aparece como uma sombra que está o tempo todo em cima de todos”, diz.

Sobre o fato de o livro não ter sido barrado pela censura, Lygia costumava brincar que provavelmente o censor se aborreceu com a história e parou de lê-la antes de chegar à cena da tortura.

Vozes femininas

Cada uma das personagens representa uma forma de estar no mundo e, apesar de Lorena tomar mais tempo da narrativa, as três têm a mesma força, afirma Resende. Segundo o professor, a escritora não idealiza a figura da mulher.

“Na obra da Lygia, as mulheres são tão capazes de fazer coisas terríveis quanto os homens. Elas são vítimas, mas também são algozes. As mulheres da Lygia são humanas, com o que o humano carrega consigo de sublime, de profano, de subterrâneo. É um feminino muito rico porque não é um feminino bibelô.”

SÉRIE ABORDA OS LIVROS DO VESTIBULAR 2026 DA FUVEST

Este é o sétimo de uma série de nove textos que abordam a lista de livros do vestibular da USP deste ano. Pela primeira vez, a Fuvest selecionou obras só de escritoras mulheres. A cada semana, uma obra é tema de reportagem que explica a trajetória da autora e os principais pontos que podem ser cobrados na prova.

Os textos fazem parte do projeto Folha Estudantes, criado para ajudar jovens na preparação para o Enem e outros vestibulares. A Folha oferece assinatura gratuita para estudantes que se inscreverem no Enem; clique aqui para saber mais.

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Fonte: Folha

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